Visões da Psiquiatria sobre as Artes | Imprimir |
Contribuições do CCYM

O PERSONAGEM DARTH VADER  E  A ATUALIDADE 


darth vader



Visão da Dra Alcina de Barros *

Escrever sobre o anti-herói icônico de gerações é uma tarefa divertida e desafiadora. É difícil existir alguém nascido após a década de 70 que não seja capaz de recuperar no imaginário Darth Vader, a figura dominante e intensa, cuja respiração emblemática antecipava tensão, risco  e potencial de destruição.

Observando o nome, é possível verificarmos uma aproximação com um Dark Father, pai obscuro, disfarce interessante, nos primeiros anos dos filmes, para o segredo que o associava aos heróis Luke e Leia, seus filhos. Pais e filhos tinham um aspecto em comum: a separação precoce de um dos genitores ou de ambos. Na origem, eram determinados, inteligentes, talentosos e conectados com a “Força”.

Star Wars nos conta a história de vida de Anakin Skywalker, sua infância, perdas, processo de aprendizado e uso de aptidões. Ele teve acesso aos melhores e mais dedicados mestres, porém, durante sua jornada de desenvolvimento pessoal, Anakin já demonstrava dificuldades de lidar com o seu lado negro. Quanto mais poderoso ele se tornava, mais identificado com aspectos da parte sombria da “Força” ele ficava. A sedução pelo poder absoluto e infinito, associada aos deletérios sentimentos de ciúmes, inveja e ingratidão, culminaram em um duelo com o Cavaleiro Jedi, seu mentor, Obi-Wan Kenobi, que arranca seu braço e suas pernas, deixando-o padecer em lava derretida. Ao sobreviver às chamas, não temos um renascimento sublimado, como da fênix grega, mas sim um ciborgue vingativo, cruel e tirânico.

Esse mito moderno ilustra a freqüente ambivalência humana, luta constante entre seguir os bons princípios, ter empatia, suportar as perdas ou se deixar conduzir pelo egoísmo extremo, ambição irrefreável, ódio e exercício da dominação. O personagem também demonstra frieza emocional e completa despreocupação com o outro, sendo este apenas interessante enquanto útil. Por que então o narcisismo maligno e os traços psicopáticos da figura robótica causam tanto impacto em nós? Não seria lógico sentir repulsa, raiva e medo, ao invés de admiração, veneração e curiosidade? A armadura negra pode ter a função de separar o que restou de humano (interno) e o que se manifesta de maligno (comportamento observável), facilitando nossa auto-justificativa de que o apreciado nele é exatamente sua característica sobrehumana.

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* Dra Alcina de Barros: psiquiatra forense(ABP), doutora em Psiquiatria (UFRGS) Psicoterapeuta de orientação analítica (CELG). Diretora Científica (CCYM)


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Visão da Dra Graziela Stein de Vargas **

O lado negro da força sempre nos acompanhou, talvez por isso esse personagem gere tanto fascínio. Todos temos um lado mais obscuro, o que Jung chamou de nossas sombras, mas que também podemos pensar que o escuro corresponde à Caverna de Platão, ou seja, o que Freud chamaria de Inconsciente.

O que não é visível aos olhos, escondido está por alguma razão ou várias razões. Muitas vezes nossos próprios mecanismos de defesa estão lá, protegendo as fronteiras do abismo.

O personagem Darth Vader usa como roupagem a cor negra construída com metal e tecido, protegendo toda a superfície de seu ser; nem seus olhos, seus cabelos, nem ao menos 1 cm de pele estão expostos, tudo se tornou uma verdadeira couraça de proteção.

Sabemos que quem muito se protege, muito esconde e neste caso era o menino doce, romântico e sonhador que sucumbiu aos desejos de poder desmedido, uma tentativa desesperada de substituir o pai não conhecido.

Darth Vader se torna o pai que não teve, poderoso e capaz de atacar e de se proteger, ou seja, com grande capacidade de sobrevivência e auto-proteção, ao mesmo tempo que mantém a perversão de um pai que abandona o filho sem antes desenvolvê-lo.

Sim, antes de se tornar Darth Vater, o menino era Anakin Skywalker, o oposto de sua sombra, me fazendo pensar em dissociação da personalidade, justo quando o menino está prestes a se tornar pai, o trauma precoce reaparece e o que nasce é Darth Vader, o menino se transforma em sua própria sombra, tentando abandonar a outra parte de si mesmo. Esquece a identidade que carregava antes, seu passado, seus sonhos, inclusive que amou. Deixa de ser luminoso para ser sombrio, para se tornar simplesmente o lado negro da força.

Entretanto, você pode se questionar: por que falar desse personagem em tempos de COVID-19? Mais do que nunca parecemos estar dissociados, separados e divididos. Por um lado, temos o grupo de Direita e outro de Esquerda; os saudáveis versus os doentes; o grupo de maior risco e o grupo de menor risco, os a favor do isolamento e os que são contra.... Quando deixaremos de agir como forças opostas, como se fosse uma luta eterna entre bem e mal e passaremos a abraçar nossas características gerais, unindo forças e reduzindo as críticas, mas buscando fazer a diferença? Seguimos à espera de um pai divino, um super patriota ou super herói para nos salvar, mas precisamos deixar de esperar salvação, precisamos assumir nossa responsabilidade e fazer nossa parte, fazer o que é possível sem brigar com nós mesmos, com nosso vizinho, com os políticos ou com a China... Não há mais tempo para isso, não agora...

Enquanto há a separação perdemos tempo e energia em lutas desnecessárias, é preciso neste momento união, paz e boa disciplina para seguir adiante.

Infelizmente não poderemos nos proteger do coronavírus com a super roupa preta do Darth Vader, mas podemos ao menos tentar unir as forças em prol do bem comum, ou seja, em prol da saúde.

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** Dra. Graziela Stein de Vargas:Psiquiatra e Psicoterapeuta, Professora de Ética e Sistemas em Saúde (CCYM), Diretora Tesoureira (CCYM).

                                                     
                                                                                                                            Porto Alegre, junho de 2020