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Diálogos de fronteiras, fronteiras do diálogo | Imprimir |  E-mail

Volume 2 - agosto 2011


Encontros e Desencontros da/na

América Latina no Século XX


Organização Ligia Chiappini

 

INTRODUÇÃO

 

Diálogos de fronteiras, fronteiras do diálogo


Ligia Chiappini

 

 

A reunião destes textos sobre literatura, na sua maior parte, mas também sobre outras manifestações culturais, visa a contribuir para o aprofundamento do diálogo entre a(s) cultura(s) brasileira(s), hispanoamericanas e caribenhas. Seu horizonte é ainda a desejada superação de um mútuo  desconhecimento que Silvio Julio e, depois, Darcy Ribeiro, definiram como um estar de costas uns para os outros. Felizmente, com eles e na esteira deles e de alguns outros pioneiros, as tentativas de superar esse desencontro sistemático foram se espandindo e adensando sobretudo a partir da segunda metade do século XX.

Em muitos momentos, o que deslancha e empurra o diálogo são congressos, grandes ou pequenos, nos quais os intelectuais e artistas se encontram e percebem que têm mais pontos em comum do que desconfiavam e, ao mesmo tempo, que sabem bem menos uns dos outros do que supunham. Decidem então prosseguir esse inter(re)conhecimento por meio de um contato mais assíduo, mesmo que pela mediação das cartas e hoje em dia, dos-mails. Mas há também as visitas, as palestras e a troca de livros difíceis de obter nos respectivos países, como testemunha, por exemplo, Emir Rodriguez Monegal, quando narra a sua descoberta de Grande Sertão: Veredas.[1]

Os congressos, intensificados na fase plena do chamado boom, desde então não pararam de motivar novos temas, debates e publicações. Para citar apenas alguns, em que alguns dos autores aqui representados participaram, lembremos os congressos de americanistas (ICA), que ocorrem de três em três anos, alternando-se entre América e Europa. Aí formou-se, há quase vinte anos atrás, o grupo internacional, interinstitucional e interdisciplinar, denominado “Cliope”, que congregou estudiosos(as) de literatura e historiadores(as), realizando, dentro e fora dos ICAs, vários simpósios e livros deles decorrentes.[2]

Há que citar também os congressos da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) e as Jornadas Andinas de Literatura Latinoamericana (JALLA), que, em 2010, pela primeira vez, ocorreu no Brasil. Foi um espetáculo à parte ver tantos hispanohablantes num campus universitário brasileiro: da Universidade Federal Fluminense, em Niterói. O portunhol aí virou língua franca e, entre os vários simpósios sobre os mais variados temas, foram marcantes, pelo número e pela qualidade, aqueles sobre a Amazônia. A partir daí, com ajuda do comitê organizador da JALLA2010[3] foi possível organizar um cadastro com mais de cem pesquisadores, seus e-mails e as respectivas instituições.

Isso motivou alguns/algumas de nós a organizar um novo simpósio no 54ICA de 2012, ampliando para essa área cultural uma proposta de pesquisa que se iniciara com a região platina. O simpósio, intitulado “Diálogos na Panamazônia: Literatura, Cultura e Sociedade/Diálogos en la Panamazonía: Literatura, Cultura y Sociedad” tem recebido adesão de colegas de vários estados brasileiros e de distintos países da região.

Cabe lembrar também que, com a criação da cátedra de Brasilianística no Instituto Latinoamericano da Universidade Livre de Berlim desde 1995 e o seu pleno funcionamento até o ano passado, foi possível estabelecer um convênio com a Universidade de São Paulo e com ela intercambiar professores, estudantes, livros, realizar pesquisas, eventos e publicacões. Entre as parcerias dessa cátedra, destacam-se, na USP, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e a Escola de Comunicacðes e Artes, com destaque para o Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, o Departamento de Sociologia e o Centro de estudos latinoamericanos, Ángel Rama. Além da própria USP, foi constante o intercâmbio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (especialmente nas áreas de História e de Literatura), bem como com o Centro de estudos de literatura e psicanálise (Celpcyro), que hoje publica esta coletânea.[4]

Uma primeira versão dos textos aqui reunidos foi apresentada no JALLA2010, de Niterói, num simpósio, coordenado por Ligia Chiappini (FU-Berlin) e Valéria de Marco (USP) e intitulado “Encontros e desencontros na América Latina do século XX”. Embora nem todos os textos aí lidos e discutidos puderam se fazer presentes aqui, a maior parte deles foi repensada e reescrita para esta publicação, constituindo uma  como amostra expressiva da proposta que os motivou, em torno do tema da mobilidade, dos deslocamentos e das identidades em trânsito, convidando-nos a repensar conceitos e teorias no campo da cultura e da política.

O modo como a América Latina vivencia a modernização e a globalização e como se posiciona frente à sua heterogeneidade e a peculiar resposta que ela deu aos desafios do século XX, são algumas das questões centrais aqui direta ou indiretamente estudadas, nao apenas com respeito à literatura em sentido estrito, mas também no que se refere ao cinema, às artes plásticas e até mesmo, embora em passant, à novela de televisão. Fronteiras, gênero, etnia, autoritarismo, resistência, relações e tensões entre arte e política, símbolos aceitos e reprimidos, da nacionalidade e da regionalidade, são alguns dos sub-temas que se investigam em diferentes materiais, linguagens, gêneros, países (Brasil, Cuba, México, Argentina, Uruguai) e regiões (Pampa, Caribe, Amazônia). Tudo isso sem esquecer as mesclas lingüísticas, a experiência fronteiriça e o horizonte da recepção.

Se a primeira parte se organiza em torno dos espaços em contato e da produção simbólica da resistência latinoamericana --do Caribe que busca a soberania ao Brasil que combate a ditadura--, a segunda parte centra-se na região pampeana, mas abrindo-se à região amazônica. O que não significa  abandonar o pampa mas alargá-lo, já que podemos dizer como o poeta Carlos Nejar: “onde eu vou/ o pampa vai comigo”, mas também discordar dele, porque o pampa é muito mais  do que “uma pistola na parede.”

Finalmente, cabe observar que editar não significa concordar com tudo o que afirmam os textos aqui apresentados. Cada autor(a) é  responsável pelo que escreveu. A quem edita e a quem publica não cabe censurar (nem aceitar incondicionalmente) o que cada autor quis expressar. O espaço para as ressalvas é o do debate público e este foi plenamente usado no simpósio acima referido, devendo aprofundar-se no próximo. Um exemplo interessante foram as divergências manifestadas em torno dos escritos amazônicos de Euclides da Cunha. A eles certamente voltaremos no 44ICA, pois dialogar não significa apenas conversar em harmonia. Pode significar uma boa “briga”, que, se civilizada, é sempre esclarecedora.

Por isso, fica aqui o convite, cara leitora, caro leitor, para que aceite o desafio e nos dê a honra de brigar um pouco, a seguir, com nossos textos.

 

 


[1] "A prosa encantada de Rosa" 4/1/2010 - Digestivo Cultural - Emir Rodríguez Monegal - Ensaios. Disponível em: http://www.digestivocultural.com/ensaios/imprimir.asp?codigo=338 (acesso: 15.04.2011)

[2] Aproveito aqui para render homenagem à saudosa colega, Sandra Jatahy Pesavento, historiadora e principal coordenadora desse grupo e de suas múltiplas atividades.

[3] Cuja extrema competência foi responsável pelo sucesso do evento e ao qual só nos resta agradecer pela pronta resposta às nossas demandas, o que aqui fazemos, na pessoa da sua presidente, Profa. Dra. Livia Reis.

[4] É preciso reconhecer que a criação mesma do Celpcyro vem propiciando desde seus inícios esse diálogo, e fazendo-o avançar não apenas para além das fronteiras nacionais, como também para além das fronteiras da academia e de suas divisões disciplinares e outras. Finalmente, cabe destacar também o trabalho conjunto com o Memorial da América Latina, em São Paulo, com o Instituto de Letras da UFRGS (especialmente na pessoa de Léa Masina), bem como o trabalho com colegas da UFRJ (especialmente, Ligia Vassallo e Luiza Lobo.