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Dyonelio Machado - Camilo Mattar Raabe

 Com muita satisfação, recebemos o texto de Camilo Mattar Raabe, poeta e estudioso da Literatura e da Cultura sul-rio-grandense, que recentemente obteve seu título de Doutor em Teoria da Literatura na PUCRS. Ele vai suprir uma lacuna séria entre os nossos Escritores Gaúchos, pois Dyonelio é dos autores mais significativos do RS., sendo Os Ratos, um de seus mais importantes livros de ficção. (MHM)

 

   Dyonelio Machado*

Camilo Mattar Raabe**

 

Dyonelio Tubino Machado nasceu em 21 de agosto de 1895, poucos dias depois do fim da Revolução Federalista, no município de Quaraí, cidade do pampa gaúcho na fronteira com o Uruguai. Transferiu-se ainda jovem para Porto Alegre a fim de estudar para o curso de Medicina, época em que trabalhou no governo de Borges de Medeiros e envolveu-se com a imprensa política, fundando e dirigindo jornais nos primeiros anos da década de 1920. Publicou seu primeiro livro em 1923, intitulado Política contemporânea - três aspectos, a partir de publicações na imprensa, e sua primeira produção ficcional foi o livro de contos Um pobre homem (1927), pioneiro quanto ao enfoque do homem urbano, caracterizado sensivelmente em sua psicologia, quando o escritor já cursava a faculdade de Medicina. Antes mesmo de completar o curso, Dyonelio foi nomeado Médico Alienista no Hospital São Pedro (Porto Alegre), em 1928. De seus estudos para o exercício profissional resultou a tese de doutorado Uma definição biológica do crime, editada em 1933 e com ampla repercussão, introduzindo em seu meio novas ideias para a psiquiatria e neurologia, numa perspectiva mais psicanalítica. Em 1935, o então médico e professor participou da fundação da Aliança Nacional Libertadora, e em decorrência de sua atuação como presidente do diretório estadual foi preso, sendo posteriormente transferido de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, totalizando dois anos de prisão. No primeiro ano de detenção Dyonelio soube que sua ficção Os ratos foi uma das vencedoras do Prêmio Machado de Assis. Nessa obra narra um dia da vida do funcionário público Naziazeno Barbosa em busca de recursos para pagar uma dívida com o leiteiro. Com uma linguagem concisa e simbólica, alcança uma dimensão psicológica das mais expressivas da literatura.

 

Na prisão, Dyonelio estabeleceu contato com o Partido Comunista Brasileiro, o qual em 1947 integrou como Deputado Estadual Constituinte, década em que editou uma trilogia ficcional impregnada por sua estadia como preso político, O louco do Cati (1942), Desolação (1944), vencedor do Prêmio Felippe d’Oliveira,Passos perdidos (1946), aos quais integraria depois de décadas Nuanças (1981), premiado pela União Brasileira de Escritores. Entre 1946 e 1966 Dyonelio passou por um período de ostracismo depois da represália política e falta de recepção de sua literatura. Nesse período iniciou uma trilogia - situada no século I de Roma, associando o cristianismo primitivo ao comunismo e Nero a Getúlio Vargas - composta por Deuses econômicos (1966),  Sol subterrâneo (1981) e Prodígios (1980); também compôs nesse espaço de tempo uma trilogia a partir de notícias de jornal sobre esquemas de corrupção, englobando Endiabrado (1980), vencedor do Prêmio Jabuti, Proscritos (2014) e Terceira vigília, os dois últimos não publicados em vida. Fada (1982) e Ele vem do Fundão (1982) foram suas últimas publicações ficcionais, ambas envolvendo conflitos geracionais e trabalhando com o tema da literatura fantástica, porém submetendo o imaginário e as crendices a uma lógica racional. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras desde 1979, Dyonelio Machado faleceu em Porto Alegre, no dia 19 de junho de 1985.

 

 

Os Ratos

 

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Um rufar — um pequeno rufar — por sobre a esfera do chiado, no forro... Ratos... são ratos! Naziazeno quer distinguir bem. Atenção. O pequeno rufar — um dedilhar leve — perde-se para um dos cantos do forro...

Ele se põe a escutar agudamente. Um esforço para afas­tar aquele conjunto amorfo de ruidozinhos, aquele chiado... Lá está, num canto, no chão, o guinchinho, feito de várias notinhas geminadas, fininhas...

São os ratos!... Vai escutar com atenção, a respiração meio parada. Hão de ser muitos: há várias fontes daquele guinchinho, e de quando em quando, no forro, em vários pontos, o rufar...

A casa está cheia de ratos...

Espera ouvir um barulho de ratos nas panelas, nos pra­tos, lá na cozinha.

O chiado desapareceu. Agora, é um silêncio e os ratos...

Há um roer ali perto... Que é que estarão comendo? É um roer que começa baixinho, vai aumentando, aumentando... As vezes para, de súbito. Foi um estalo. Assustou o rato. Ele sus­pende-se... Mas lá vem outra vez o roer, que começa surdo, e vem aumentando, crescendo, absorvendo...

Na cozinha, um barulho, um barulho de tampa, de tampa de alumínio que cai. O filho ali na caminha tem um pris­co. Mas não acorda.

São os ratos na cozinha.

Os ratos vão roer— já roeram! — todo o dinheiro!...

Ele vê os ratos em cima da mesa, tirando de cada lado do dinheiro — da presa! — roendo-o, arrastando-o para longe dali, para a toca, às migalhas!...

Tem um desespero nervoso. Vai levantar! Mas depois do baque da tampa caindo, fez-se um silêncio, um grande silêncio... Espera um pouco. O silêncio continua. Nem mesmo o chiado se ouve. Há só o silêncio.

Ele está sentado na cama. A seu lado, a mulher dorme, muito pálida, a cara gorda e triste. É um sono sereno, como de morta. Pensa em acordá-la, mas suspende-se: é tudo silêncio outra vez, o guinchinho cessou, cessou aquele roer num dos cantos do soalho... E, depois, sente um meio ridículo, uma vergonha...

Deita-se. De novo vê o dinheiro ao lado da panela do leite, sobre o tampo muito branco da mesa, no meio dum silêncio quieto...

Não teria ficado algum farelo de pão na tábua da mesa?... Parece "ter visto" — ter visto! — farelo de-miolo branco, seco, duro, como uma pequenina pedrinha... Mas como é que poderia ter ficado esse farelo aí?... Mainho não come pão de noite com o leite... Só se comeu esse dia, por exceção! Não é impossível... Não sabe... não perguntou...

Não tem bem certeza se os ratos sobem em cima da mesa. "— Se sobem..." Ouve nitidamente a "voz" de Adelaide respondendo... informando... esclarecendo...

Vai levantar!

Meio "prepara" a energia, a decisão muscular. Fica todo acuidade. Quer examinar ainda a sua ideia um instante, antes de se erguer. Tem uma fadiga... uma irresolução... Como essa que experimenta de manhã quando acorda e não se anima a deixar a cama...

Os ratos estão roendo, roendo, perto dali, no canto do soalho... Talvez seja a própria tábua do soalho que eles estão roendo...

Estuda bem a "questão": se os ratos roem dinheiro... Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos, uma moinha... uma poeira... Sente um pavor eum frio amargo dentro de si! Aquela nota verde, gordurosa, graxenta, está sendo roída... roída... roída... Esse fato está se passando agora... écontemporâneo dele!... Os ratos estão roendo ali na cozinha... na mesa... são dois... são três.... andam daqui para lá... giram.... dançam... infatigáveis... afanosos... infatigáveis...

Vai levantar! Vai dar outra arrumação.

Mas qual?... Há um "equilíbrio" naquele "esperar" sobre o tampo da mesa — rolinho escuro e achatado, ressaltando, bem à mostra, da tábua branca, lavada...

Não é possível — uma coisa tão medonha assim... Nunca lhe disseram... nunca! É que o dinheiro nunca se acha ao alcance deles... Não devia ter deixado dinheiro em cima da mesa, dinheiro papel! Ainda pode tirá-lo dali. E colocar onde?... Dentro da panela não pode ser... Não pode ser debaixo dela: ele não pega a panela quando bota o leite...

Guardar, então. Esperará o leiteiro de pé... Depé!... Tem uma fadiga... um cansaço...

Não roem, não. Não é possível... nunca ouviu dizer...

 

(Os ratos, fragmento do capítulo 27, p.190-192. São Paulo: Editora Planeta, 2004.)