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CYRO MARTINS - Vida e Obra

                                                                                                                                          

                                                                                                                                                                                                                                    Fábio Varela Nascimento        

               

Em 1944, Cyro Martins experimentava um sucesso literário até então inédito em sua carreira como escritor. Campo fora, de 1934, Sem rumo, de 1937, Enquanto as águas correm, de 1939, e Mensagem errante, de 1942, não provocaram o mesmo barulho que Porteira fechada, lançado entre março e abril daquele ano em que a II Guerra Mundial começava a pender para os Aliados.

                Antes mesmo de chegar às livrarias, já se falava em Porteira fechada. Na edição número 359 da Revista do Globo, na introdução àextensa matéria “Será este o nosso estado?”– que contava com textos de Cyro (“História do gaúcho marginal”) e Justino Martins (“Crônica de uma cidade marginal”) e fotografias captadas pelas lentes de Ed Keffel –, havia menção ao livro:

Cyro Martins, em sua história [“História do gaúcho marginal”], expõe uma situação e sugere suas causas, da mesma forma que o faz, brilhantemente, em seu novo romance Porteira fechada, que deverá sair a público dentro de poucos dias, numa edição da Livraria do Globo[i].

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A propaganda dos seus produtos era uma marca da Globo. Entretanto, ainda que essa estratégia fosse utilizada com a trama de Guedes, um fato se impunha: Porteira fechada se tornava conhecido pelo público.

                De volta às páginas da Revista do Globo, é possível observar uma pista mais contundente do sucesso da obra. Na coluna “Escritores e livros”[ii], assinada por Carlos Regius em 06 de maio de 1944, Porteira fechadaaparecia em duas notas. Em uma delas, via-se a reprodução de uma imagem da vitrine da Livraria do Globo, que estava decorada com os exemplares do romance e as fotografias de Keffel utilizadas em “Será este o nosso estado?”. Na outra, um box intitulado “Guia do Leitor”, lia-se a referênciaaos cinco livros mais vendidos nas lojas da Livraria do Globo na “última quinzena” e Porteira fechada ocupava a segunda posição, atrás apenas de Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins.

 

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A boa vendagem de Porteira fechada assinalava o sucesso da obra e mostrava que ela chegava aos mais variados leitores.Cyro entendia que um escritor só completava seu papel quando atingia o público. De nada adiantava editar e lançar livros se as pessoas não os lessem e não lhe dessem algum retorno. Naquela metade de 1944, Cyro sabia que sua mais recente história era lida e esperava as opiniões. Elas vieram de vários lados, mas uma foi mais significativa. No final de junho de 1944, Cyro recebeu dos funcionários da Globo a carta de um leitorespecial: Marques Rebelo[iii].

Com data de 20 de junho de 1944, a carta de Rebelo começava com esclarecimentos:

Por intermédio do nosso amigo Maurício, que está trabalhando muito por você aqui, como já devia há mais tempo ter sido feito, recebi seu último romance Porteira fechada.

O autor do premiado Marafa se referia a Maurício Rosenblatt, chefe da filial carioca da Livraria do Globo. A passagem “como já devia há mais tempo ter sido feito” sugere que Marques Rebelo conhecia a literatura de Cyro desde antes de ela ser divulgada por Rosenblatt. De qualquer maneira, interessava que Rebelo leu os livros de Cyro e teve segurança para afirmar: “Seria escusado mandar adjetivos aos teus méritos de romancista, mais do que isso, de escritor”.

Era bom receber o elogio de um colega de oficio e saber que ele vira aspectos positivos em Porteira fechada:

Há principalmente uma coisa no seu último livro que me agrada muito – limpeza. Limpeza no sentido que os ensaiadores teatrais, dignos desse nome, encaram o último ensaio do espetáculo – tudo certinho, sem mais e sem menos.

Esse “tudo certinho, sem mais e sem menos” fazia com que Cyro tivesse duas certezas:Porteira fechada era um acerto literário e aquela carta era para guardar.              



[i]SERÁ ESTE O NOSSO ESTADO? Revista do Globo, Porto Alegre, n. 359, p. 24, 25/03/1944.

[ii] REGIUS, Carlos. Escritores e livros. Revista do Globo, Porto Alegre, n. 362, p. 16, 06/05/1944.

[iii]A carta de 1 folha enviada por Marques Rebelo pode ser encontrada na caixa 29 do Acervo Cyro Martins.

 

* Revista do Globo n. 359, capa e p. 24. Fonte: Catálogo da Revista do Globo (1929-1967).

**Revista do Globo n. 362, p. 16. Fonte: Catálogo da Revista do Globo (1929-1967).