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José Francisco Botelho  E-mail
Coluna CELPCYRO - Colunistas

 

 

 

 

 

Botelho



 

José Francisco Botelho - aliás, José Francisco Hillal Tavares de Junqueira Botelho, conforme atestam os registros - é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de estreia, A árvore que falava aramaico (Zouk, 2011), é um resgate da tradição do conto fantástico sul-americano, aliado ao impulso da narrativa oral da região da Campanha gaúcha. Influxos da mesma vertente se encontram em sua premiada tradução de Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer (Companhia das Letras, 2013), em que a dicção medieval é encorpada por formas e expressões da nossa antiga poesia popular. Para a Companhia das Letras, traduziu também Drácula de Bram Stoker, contos de Arthur Conan Doyle e Romeu e Julieta, de William Shakespeare. É autor de A odisseia da filosofia: uma breve história do pensamento ocidental (Abril, 2015). Além disso, publica em várias revistas de circulação nacional desde o início deste milênio. Em breve, mais um livro seu será lançado. Por enquanto só se sabe que será de contos.

Sobre a tradução de Contos da Cantuáris, de Geoffrey Chaucer - Reproduzimos carta de Ivan Junqueira, poeta e tradutor consagrado, sobre o trabalho de José Francisco Botelho:

 

Meu estimado José Francisco:

 

Li, maravilhado e quase incrédulo, a sua excepcional tradução de The Canterbury Tales. Jamais passou por minha cabeça que se pudesse verter Chaucer para nosso idioma com tamanha fluência, elegância, concisão e inteligência métrico-rítmica. Vou mais longe: não se percebe que se trata de uma tradução, e apraz-me às vezes dizer, calcado naquele conceito coleridgiano da suspension of disbelief, que gosto mais de certas traduções do que dos originais, exatamente porque se trata de uma tradução, ou seja, a poesia ‘alheia’ que nos serve o ‘homo ludens’ a partir do que escreveu o ‘homo faber’. Pode estar certo de que você realizou um milagre… Abraço afetuoso do seu

 

                                                                                          Ivan Junqueira.



chaucer 

                                                                                                                                                                          


CONTO DO MOLEIRO*  Tradução de José Francisco Botelho

 

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Em Oxford existiu já faz um tempo

Um rico porém rude carpinteiro.

Alugava em sua casa, que era grande,

Um quarto para um jovem estudante,

Que as artes estudava já no trivium.

Na astrologia estava seu delírio;

Sabia responder certas questões

Por meio das astrais revoluções.

Podia prever secas ou enchentes,

Pela hora em que atendia os seus clientes, (1)

E muitas outras coisas do futuro;

Mas disso não lhes posso contar tudo.

 

O nome do rapaz é Nicolau

- No ofício sedutor não tem igual.

Cultiva modos doces, inocentes,

A sua astúcia ocultando astutamente.

pp.119-120

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O carpinteiro há pouco se casara

Com certa moça de beleza rara.

Dezoito anos tinha essa menina;

Mas viver quase presa era sua sina;

O marido ciumento, velho e morno

Temia ganhar dela um par de cornos,

Pois ela era um fogoso furacão.

Como dizia o bom, velho Catão:

“Casa só com alguém de tua idade

Caso pretendas ter um bom enlace”.

Mas fora na armadilha capturado

- E teria de arcar com o seu fardo.

 

Igual doninha, esguia era a garota,

Pequena e deliciosa - e a linda roupa

Era avental plissado, alvo-leitoso,

E cinto com debruns, branco e sedoso.

O avental lhe moldava as belas ancas;

Usava uma camisa fina e branca

E a gola era bordada em linhas negras

Atrás e à frente, e dentro e fora, em seda.

As trenas de sua touca combinavam

Co’a gola. Mil babados a adornavam

De seda, à frente usava larga fita;

E de luxúria o seu olhar palpita.

Suas sobrancelhas eram finas, pretas,

E as depilava até estarem perfeitas.

Delícia de se ver, jovem, fagueira,

Que nem recém-brotada cerejeira,

Suave como a lã de um cordeirinho.

Tinha uma bolsa feita em couro fino,

Com contas de latão enfileiradas.

E garanto a vocês, meus camaradas:

Nem o maior artista em toda a Terra

Poderia inventar moça mais bela!

pp 120-121

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Então, meu bom senhor, meus bons senhores,

O esperto Nicolau sofria dores

De tanto desejar a bonequinha.

p 122

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Mas disse Nicolau: “Ó, tu me matas”,

E a causa pleiteou com tal esforço,

Que no final a moça disse ao moço

Que sim - e prometeu-lhe tudo dar,

E serviu com ardor, por são Tomás,

Sempre que vislumbrasse uma ocasião.

“Mas tens de agir com toda a discrição;

Se meu marido um dia nos flagrar,

Com certeza a nós dois há de matar.

Nosso amor guardarás como um segredo.”

E ele disse: “Meu bem, não tenhas medo;

Pois não é um estudante verdadeiro

Quem não sabe enrolar um carpinteiro”.

 

E assim os dois ficaram decididos

A chifrar em segredo o tal marido.

pp.122-123 

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E aconteceu que um dia, num, feriado,

Essa ilibada dama de que falo

Na igreja foi cumprir suas devoções.

Passou no belo rosto mil loções,

Na pele com nuanças de cereja.

Havia um sacristão naquela igreja,

Simpático, e chamava-se Absalão.

De olhos cinzentos, louro, folgazão.

Sua pele era rosada; repartidos

Ao meio eram seu cachos escorridos.

Seu sapato é rendado em ogivais

Como as janelas têm nas catedrais (2)

Usava calças justas e ecarlates,

Túnica azul co’engenho feita e arte,

Com passamanarias na cintura.

Andava sempre cheio de finura,

Suas roupas ostentando alto e feliz

Com branca, jovial sobrepeliz.

Era ótimo rapaz, logo se via!

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Nosso bom Absalão, feliz finório,

Andava aquele dia co’o incensório,

Incensando as mulheres da paróquia.

E a cada belo rosto, para e olha.

Olhou co’espanto a nossa conhecida.

Podia olhar pra ela toda a vida!

Ela era tão vistosa que arremato:

Se fosse camundongo, e o jovem, gato,

Ali mesmo em suas garras a pegava.

Esse bom sacristão agora estava

Tomado de paixão mui forte e louca.

Jamais cobrava dízimo das moças;

Sorria, gentilmente recusando.

Então caiu suave a noite e quando

Vu a lua, a guitarra ele pegou,

E sentindo-se insone pelo amor,

Saiu à rua apaixonado e doido,

Buscando a casa de sua musa afoito.

E no momento em que cantava o galo

Trepou por uma curva do telhado

Junto à janela de sua bem-amada,

Cantando uma canção apaixonada:

Ó linda dama, te suplico assim:

Teu pensamento voltes para mim...

Seguindo a melodia co’a guitarra.

 

E o carpinteiro, ouvindo, despertara;

E disse à sua mulher, de supetão:

“Ó Alisson, acaso é Absalão

Fazendo cantorias na janela?”.

“Sim, John, é ele, o próprio”, disse-lhe ela,

“Por Deus, que reconheço aquela voz.”

 

E assim tudo se deu pelo melhor;

De tanto cortejá-la, o sacristão

Foi caindo em geral desolação;

Passava insone as noites, todo dia;

Mas mantinha fingida galhardia:

Mandava-lhe presentes e recados;

Prometia tornar-se seu criado;

Pipilava tal qual um passarinho;

Mandava-lhe hidromel e doces vinhos,

Quitutes, bolos, sacos de moedas

- Pois era citadina a moça bela; (3)

Há moças que se ganha em ouro e prata;

Outras, com beijos; outras, com pancadas.

 

Querendo impressioná-la, fez-se ator

E Herodes numa peça interpretou;

Mas tudo aquilo redundava em nada

Pois era Nicolau quem a moça amava.

..............................................................
pp 124-125

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* Chaucer, Geoffrey. Contos da Cantuária. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013. (1ª. Edição do original em 1475)

Em síntese, lê-se na contracapa da edição da Companhia das Letras: “Rico e diverso, o livro descortina – com crueza e lirismo, graça e deboche – o universo social e cultural da Inglaterra em plena Idade Média.”

 

NOTAS (numeradas cf. ordem nos fragmentos transcritos aqui)

(1) Ou seja, observando a hora do dia em que certas perguntas lhe eram feitas, previa por meio de procedimentos astrológicos quais eventos climáticos afetariam os negócios daquele cliente em particular.

(2) Segundo Skear, era costume na época usar sapatos cuja parte superior exibia rendilhados semelhantes aos complicados adornos das janelas das catedrais .

(3) O dinheiro, naturalmente, era mais útil na cidade do que no campo, onde haveria menos coisas para se comprar.

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                Um cavalo muito cavalar

                          Aqui explico como comecei a traduzir o Chaucer.  

 Foi em um inverno proverbialmente bajeense, com abundância de geadas e profunda compenetração junto às lareiras, que me deparei com o cavalo imaginário de Borges e Chaucer. No momento, não me ocorreu que aquele animal fantasioso, em seu devido tempo, fosse influenciar tão profundamente os rumos de minha vida. Mas assim transcorrem as coisas, aqui no mundo sublunar: o destino é um jogador de truco, cujos tiques, esgares, silêncios e meios-sorrisos só se tornam plenamente decifráveis quando a rodada está completa.

 

Pois bem: à beira de uma lareira no pampa, eu lia La historia de lanoche, de Borges. Ali, consta um poema em prosa, chamado El caballo ‒ que, embora não esteja entre os mais conhecidos do autor, capturou minha fantasia por um detalhe equino-filológico. Eis o texto borgeano:

 

La llanura que espera desde el principio. Más allá de los últimos durazneros, junto a las aguas, un gran caballo blanco de ojos dormidos parece llenar la mañana. El cuello arqueado, como en una lámina persa, y la crin y la cola arremolinadas. Es recto y firme y está hecho de largas curvas. Recuerdo la curiosa línea de Chaucer: a veryhorselyhorse. No hay con qué compararlo y no está cerca, pero se sabe que es muy alto.

 

Nada, salvo ya el mediodía.

 

Aquí y ahora está el caballo, pero algo distinto hay en él, porque también es un caballo en un sueño de Alejandro de Macedonia.

 

Borges descreve um cavalo em um sonho; o homem que está sonhando é Alexandre, o Grande. Para arrematar a descrição, o argentino recorre a uma citação de Chaucer: a veryhorselyhorse. A primeira imagem que me veio à mente foi, compreensivelmente, anacrônica; não sei que tipo de cavalos andariam pelos sonhos de Alexandre, mas, para mim, a veryhorselyhorsesópoderia ser umdaqueles fletes crioulos entre os quais eu crescera, nas profundezas da Campanha.

 

Agora, é importante frisar um detalhe: tudo isso ocorreu nos idos da década de 1990; e eu, adolescente nas letras, nada sabia a respeito de Geoffrey Chaucer e seusContos da Cantuária. Mas o cavalo onírico, que "enchia a manhã" no poema de Borges, agora me enchia a mente, múltiplo e total,enquanto as chamas ensaiavam piruetas e metamorfoses na lareira. Tentei imaginar, especialmente, que pelagem teria aquele veryhorselyhorse: seria um tordilho, um bragado, um oveiro, um rosilho, um mouro, um tostado, um azulego? Ou talvez um tordilho negro, um tordilho vinagre, um mourorosilho, um branco melado? Essas questões me atribularam ao longo daquele inverno; à época em que as geadas se desvaneceram, me convenci de que o cavalo de Chaucer devia ser um picaço; mas, no alvorecer da primavera, tive sonhos recorrentes com um cavalo de pelagem hipnotica mente lunar, correndo como um fogo fátuo na noite do pampa. As estações seguiram girando, cresci um pouco e acabei compreendendo que, na Idade Média, os cavalos de certo teriam outros pelos, diferentes dos que eu conhecia…. De qualquer forma, decidi recolutar aquele potro verbal. A tarefa foi mais difícil do que parece: não encontrei exemplares de Chaucer em Bagé; e, naquela época, importar livros era muito mais difícil do que hoje; além do mais, não havia Google para desencavarmos trechos obscuros da literatura universal com um mero tamborilar de dedos.

 

Finalmente, já morando em Porto Alegre, pus as mãos nos Contos, em um sebo do Centro. E só então descobri que o verso citado por Borges nã o existia – ou melhor, existia apenas no poema borgeano. O filho de Dona Leonor de certo fizera uma citação puxando pela memória – que lhe deu uma suave e criativa rasteira. Ao escrever El caballo, é provável que Borges estivesse pensando nestes versos, do Conto do Escudeiro:

 

Right as itwere a steede of Lumbardye;

                  Ther with so horsly and so quyk of eye.

 (Como se fosseum corcel da Lombardia, / tão cavalar e de olhos 

tão ligeiros)

 Eu finalmente encontrara o cavalo de Chaucer, mas ele era diferente da versão borgeana. A incongruência virou inspiração. Naquele mesmo dia, umas linhas em português  saltaram em minha mente, misturando o verso medieval com a desleitura do argentino:

 

Era um cavalo muito cavalar.

                  Velozes são seus olhos; parecia

                 Atrevido corcel da Lombardia.

 

E assim, por causa de um cavalo muito cavalar, decidi traduzir os Contos da Cantuária em decassílabos portugueses, metrificados do início ao fim, deixando que os ares da Campanha gaúcha soprassem aqui e ali, para conferir às peripécias dos romeiros medievais meu próprio toque de vida e verossimilhança. A tradução completa foi publicada pela Companhia das Letras em 2013, e minha versão para o verso inexistente de Chaucer – que Borges inventou e eu procurei por anos – está lá dentro, na página 485, à maneira de um talismã.

 

Quanto  ao  Mistério da Pelagem, a questão continua em aberto. Embora nada diga sobre o pelo de seu cavalo, Chauce nos garante que o animal era “feito de bronze”. Se eu tivesse de decidir com base nessa informação, diria que o cavalo era um gateado – pelagem que me parece apresentar a nuança mais próxima ao brônzeo-marrom. Mas minha erudição campeira é bastante falha e vem caducando após tantos anos de vida citadina…Além disso, já me topei com bronzes de vários tipos, alguns escuros, alguns esmaecidos; alguns quase negros, outros pendendo para o verde ou azulado ou cinzento. Seria, talvez, um zaino, um pangaré, um lobuno?Vieram outros invernos, outros verões, e o cavalo muito cavalar continua mudando de forma e de figura, como as chamas daquela lareira, à beira da qual o encontrei pela primeira vez, em um distante inverno do Sul.

 

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