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UM ENCONTRO COM A TEORIA QUEER E-mail
Artigo de Fundo

 

Guacira

Guacira Lopes Louro *

 

Nos últimos tempos, ouve-se falar de uma tal de “teoria queer”, quase sempre na voz de militantes, intelectuais e estudantes ligados em questões de gênero e sexualidade. Mas o que vem a ser isso? Mais uma teoria da moda? O que se pretende sugerir quando se diz que alguém ou algo é queer?

Vinda do inglês, a palavra pode ser traduzida por “estranho”, “esquisito”, “excêntrico”. Essa é também uma expressão pejorativa usada para designar todo e qualquer sujeito que não seja heterossexual (em nossa cultura, algo equivalente a “bicha”, “viado”, “sapatão”, “traveca”). No final dos anos 1990, essa expressão, com toda sua carga de estranheza e de deboche, é assumida e reapropriada por militantes e intelectuais com o propósito de subverter o caráter depreciativo com que eram designados todos os “fora da norma”. Ressignificado, queer passa a ser usado para afirmar uma diferença que não quer ser integrada, muito menos tolerada. Aos poucos, pelo trabalho de intelectuais ligados ao movimento, seu sentido vai se alargando e o termo passa a sugerir um movimento perturbador, passa a sugerir transgressão, ambiguidade, entre-lugar (ou não-lugar). Queer transcende o âmbito das sexualidades e dos gêneros e permite pensar não apenas outros marcadores sociais, mas, de forma mais ampla, a cultura e o conhecimento.

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Entrei em contato com a teoria queer há alguns anos e, na medida em que fui percebendo seu potencial provocativo, passei a discutir algumas de suas noções ou estratégias nos espaços acadêmicos em que atuava. Foi especialmente junto com estudantes e colegas do GEERGE (Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero) e do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que me vi instigada a pensar sobre a potencialidade da teoria queer para a Educação. Mas como articular esses dois campos tão distintos? O que faz ou pode fazer o pensamento queer, subversivo e perturbador, num campo como o da educação, historicamente disciplinador e normativo? Num primeiro movimento, o queer continua, renova e amplia a contribuição dos estudos feministas, gays e lésbicos que, já há algum tempo, chamavam atenção para as formas de construção dos gêneros e das sexualidades, demonstrando a produção de desigualdades e submetimentos. O trabalho de militantes e intelectuais ligados a esses campos já se fazia sentir no âmbito da educação, pelo menos em alguns espaços e programas. O queer segue e também transforma esse processo. Não se limita a trazer à cena outros sujeitos e práticas, mas também implica outras leituras, sugere outras ferramentas analíticas. Sua carga subversiva parece especialmente potente.

Queer é mais do que um termo “guarda-chuva” que abriga todas identidades, comportamentos ou práticas que se desviam das normas regulatórias da sociedade. Pensa-lo assim talvez implique uma redução do seu impacto. É possivel ver o queer como uma espécie de disposição existencial e política, um jeito de estar e de ser. Mais do que uma (nova) posição de sujeito ou um lugar social estabelecido, queer indica um movimento, uma inclinação, uma tendência. Supõe a não-acomodação, admite a ambiguidade, o não-lugar, o trânsito, o estar-entre. Queer pode ser visto também como um conjunto de saberes que poderiam ser qualificados como “subalternos”, quer dizer, saberes que se construíram e se constroem fora das sistematizações tradicionais, saberes predominantemente desconstrutivos mais do que propositivos. Assim, juntamente com outros estudos contemporâneos, os estudos queer vêm promovendo novas políticas de conhecimento cultural. O movimento e os estudos queer podem nos levar a questionar sobre o que conhecemos e sobre o que desconhecemos, ou melhor, sobre o que nos permitimos conhecer e sobre o que deixamos de conhecer, o que ignoramos. No campo do conhecimento e da educação isso pode nos levar a fazer perguntas que usualmente não são feitas, a questionar o que costuma ser inquestionável. A quem ou a que a nossa cultura se recusa conhecer? O que essa recusa ou esses limites podem nos dizer? Essas são questões que ajudam a desconstruir o conhecimento estabelecido, questões que buscam analisar como foi construído e legitimado o conhecimento consagrado, o Conhecimento escrito com letras maiúsculas.

Quando se passa a dizer que não apenas o gênero, mas também o sexo é culturalmente construído, quando alguém sugere, como faz Judith Butler (provavelmente a mais destacada entre as pensadoras queer), que “talvez o sexo tenha sido, desde sempre, gênero de maneira que a distinção sexo/gênero não é, na verdade, distinção alguma”, está se pondo em risco noções fortemente enraizadas na lógica e na existência de todos. Na medida em que se questiona a normatividade do gênero e da sexualidade se põe em xeque algo que pode ser visto como um dos “pilares” do modo como pensamos e vivemos. A lógica binária que define os sujeitos como macho ou fêmea também implica que os gêneros serão dois e que a sexualidade deve ser exercida com alguém de sexo/gênero oposto. A heteronormatividade que dá suporte a essa lógica, como todas as outras normas, se exercita de modo silencioso, invisível, disseminado. Se ousamos colocar em questão esse binarismo “fundante”, se ousamos pensar em multiplicidade de gêneros e sexualidades, então outras dimensões da constituição dos sujeitos, outras dimensões da vida também podem ser perturbadas, multiplicadas, complexificadas. Há, pois, um potencial político muito expressivo e intenso no debate proposto pela teoria queer. E vale notar que essa teoria atravessou fronteira. Hoje, no Brasil, o movimento e o pensamento queer vêm encontrando espaços e formas de expressão que, ao mesmo tempo em que mantêm o tom transgressivo e provocador iniciais, manifestam-se com cores, práticas e modos próprios daqui.

 

  • Guacira Lopes Louro é doutora em Educação, professora aposentada da UFRGS e fundadora do GEERGE. Publicou, entre outros títulos, Um corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria queer.(Autêntica Editora). Assista à entrevista da Professora no YouTube