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CYRO MARTINS REVISITADO - Um (novo) depoimento  E-mail
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appel                           

 

 

                                                                                                                        Carlos Jorge Appel*


 

 

~ 1 ~ 

 

 

Na conturbada década de 1960 / 70, eu era professor de Literatura Brasileira na então Faculdade de Filosofia da UFRGS, como assistente do professor Guilhermino Cesar. Como ele havia terminado de publicar, pelo Globo, sua História da Literatura do Rio Grande do Sul, das origens ao Simbolismo, propus-lhe fazer um projeto que privilegiasse a presença dos escritores gaúchos em sala de aula na faculdade, visando à análise de suas obras. Isso porque as obras de Dyonélio Machado, Ivan Pedro de Martins, Mário Quintana, Pedro Wayne e Cyro Martins – entre tantos outros – haviam desaparecido das livrarias do RGS e do país por não terem sido mais reeditadas. O golpe político de 1964 praticamente impediu que o projeto continuasse. Dei um volta no assunto. Em 1968, em pleno AI 5, juntamente com Moacyr Scliar e Lígia Averbuck – na época minha aluna na UFRGS – levamos para Antonietta Barone, na Subsecretaria da Cultura, ligado à SEC/RS, o projeto Autores Gaúchos, vigente até hoje. Apesar dos contratempos, vingou e cresceu.

 

Coube-me, como contrapeso, mais tarde, assumir o compromisso de escrever o fascículo Nº 1 deste projeto. Meu escolhido foi Cyro Martins, cuja obra eu havia relido integralmente. Nessa época, como crítico literário do Correio do Povo, onde publicava artigos semanais, fiz uma análise de A entrevista (Sulina, 1968), em que Cyro Martins, após 34 anos do lançamento de Campo fora (Globo, 1934), voltava a escrever histórias curtas. Encontrei no livro – misto de histórias campesinas e urbanas – contos bem elaborados e consistentes. Mas, no final do artigo, chamava a atenção para o fato de Cyro Martins ter uma linguagem e uma propensão estrutural à narrativa longa, como era o caso de Porteira fechada (1944) e de Estrada nova (1954).

 

Alguns dias após a publicação deste artigo, recebi um telefonema de Cyro Martins. Nascia assim, deste modo simples e direto, uma longa e profícua amizade, que durou até a sua morte. Fizemos um acordo tácito: a Movimento publicaria todas as suas obras esgotadas e os novos livros a serem lançados. Cyro Martins se comprometia, em contrapartida, a rever e revisar conosco toda a sua obra. As nossas conversas semanais, que duraram mais de 30 anos, permitiram a edição revista de toda a sua obra. A vida lhe deu cancha para tanto, como costumava dizer.

 

Comprometia-se a participar, também, de encontros literários, mesas-redondas, feiras de livros. Em plenos 80 anos viajava, como dizia Léa Masina, com a força de um adolescente. Nunca se queixava de nada: a vida estava por ser feita, a cada instante. Sua alegria de viver era instigante. Foi um dos muitos legados do psiquiatra, do romancista e do amigo Cyro Martins.

 

 

 

~ 2 ~

 

 

 

Cyro Martins, seguidas vezes, mostrava sua preocupação com a ausência de sua obra literária nas livrarias de Porto Alegre e do Brasil. Havia investido, anos a fio, toda a sua força criadora na área da psicanálise, junto a seus pacientes, participando de simpósios, escrevendo artigos e livros nessa área.

 

Queixava-se, também, do abandono a que haviam ficado suas obras iniciais, como era o caso de Sem rumo. Das muitas conversas surgiu a ideia da trilogia do gaúcho a pé, pois havia uma sequência natural, pela temática comum, que perfilava três romances: Sem rumo, Porteira fechada e Estrada nova. A relutância de Cyro Martins, no início, em confirmar a trilogia, radicava na sua observação de sempre: ao escrever estes romances, ele nunca havia pensado no assunto. Mas, aos poucos, ele foi elaborando esta possibilidade. Eu insistia que deste modo ele poderia levar Sem rumo para um novo patamar. Deste modo, talvez alcançasse outro nível de referência junto aos críticos literários e aos seus futuros leitores. Ele reconhecia que a temática do gaúcho a pé já transparecia em vários momentos de suas primeiras histórias. A trilogia do gaúcho a pé, hoje, já faz parte da nossa cultura.

 

 

 

Porto Alegre, 06/07/2012.

 

 *Professor, Escritor e Editor e Diretor da Ed. Movimento