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Agumas Páscoas, Roberto Bittencourt Martins  E-mail
Além da Letra - Acontecências

                       

                    O salão de espera do aeroporto estava cheio, mas ele avistou lá no fundo, junto à parede, um assento ocupado apenas pela mochila de um rapaz que se revezava entre o trabalho num laptop e a conversa no celular. Pediu licença e o rapaz esvaziou a cadeira, absorvido em suas tarefas, sem nem erguer os olhos. Já sentado, ele olhou o relógio. Ainda faltava um bom tempo para a chamada de seu vôo. Abriu seu iPad e digitou o aplicativo da estante, pensando que também precisava trabalhar. Sem muito entusiasmo, escolheu Machado de Assis, o “Memorial de Aires” que pretendia utilizar em seu curso, para ilustrar os conflitos psicológicos trazidos pela terceira idade. Procurou o sinal na página onde havia interrompido a leitura. Encontrou a folha marcada. Lá estava: no dia 8 de abril do diário de Aires:

                       “Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia”...

 

                      A frase seguinte, pesada, falando em cinzas, enterros e missas de sétimo dia, logo o retirou da leitura. Sonolento, refletiu como tudo aquilo parecia antigo. O “papel” deixara de ser papel e suas letras agora riscavam, passageiras, a pequena tela iluminada do volume virtual... Não teve tempo para pensar noutra coisa. Escutando o som monótono dos monossílabos do rapaz da mochila ao celular, suas pálpebras caíram, desligando a luminosidade da tela. Seu olhar ficou então livre para mergulhar na escuridão silenciosa do sono.

                        Quando voltou a enxergar, olhou o relógio e percebeu que teria provavelmente cochilado por alguns minutos. E, quase automaticamente, retornou à leitura na tela do iPod:

                     “É domingo de Páscoa e o menino está descendo a escada”...

                       Suspendeu o olhar. Imaginou que, durante o cochilo, teria tocado sem perceber nalgum dispositivo e mudado de livro. Não reconheceu as frases que estava lendo, mas também não sentiu vontade de procurar o conselheiro Aires e seus conflitos de idoso. As palavras do livro, aparentemente surgido do nada, estavam ali, enfileiradas no branco brilhante da tela, e ele foi deixando que elas conduzissem sua mente:

                       É manhã de Páscoa e o menino está descendo a escada da casa, num sanatório                      

                        Terá sido a leitura que o cansou? Ou uma desconfortável sensação de algo já visto muitas vezes é que terá vindo perturbar sua atenção? Escutou uma voz de mulher no alto-falante dizendo alguma coisa que não entendeu direito. Algum vôo teria sido cancelado... Mas não compreendeu bem nem o número nem o horário. Voltou-se para o lado para perguntar a seu vizinho. A cadeira estava vazia. O rapaz havia desaparecido, com seu celular e seu laptop.

                       Desconcertado, olhou ao redor. Havia bem menos gente no salão agora. Tentou comunicar-se com um passageiro algumas filas adiante. Mas o homem dormia profundamente, encostado na mulher também adormecida, e nem ouviu sua pergunta. Procurou avistar alguém do aeroporto ou da companhia aérea. Uma moça uniformizada, loura e muito jovem, surgiu de repente no corredor. Ele se dirigiu a ela, mostrando a passagem. Ela sorriu e esclareceu que seu vôo estava um pouco atrasado, mas não havia motivo de preocupação: ele poderia aguardar no salão que, dentro de uma hora mais ou menos, fariam a chamada. E repetiu, talvez vislumbrando uma certa desconfiança na expressão dele: ele poderia aguardar com calma, era só ter um pouco de paciência. Para rematar, olhando o iPod aberto que ele tinha nas mãos, aconselhou-o sorridente: dá pra descansar um pouco, continuar lendo seu livro, fazer um desses jogos, cochilar um pouco...

                        - Tudo vai dar certo – ela disse.

                        E, para espanto dele, num gesto inesperado, despediu-se com dois beijos nas suas faces, desejando “boa-viagem”. Ainda surpreendido, sentindo a marca dos lábios dela em seu rosto, ele a viu afastar-se pelo saguão, cabelos muito louros, iluminada pelas luzes dos anúncios coloridos da companhia aérea. Resignado, sentou-se, e sem saber bem porque, fixou o olhar na tela do iPod, onde as páginas do livro estranho continuavam a brilhar. Embarcando nelas, de novo como um autômato, voltou a deixar-se navegar por suas ondas. E foi lendo:

                     Quantos anos irão passar? Quantos coelhos de chocolate, agora já sem nenhum pão? Quantas Páscoas enquanto o menino vai crescendo? Numa delas, espera, com uma tia, no andar de baixo do sobrado, o nascimento de um irmão. Um choro forte, vindo lá de cima, anuncia que o bebê chegou. Muitas Páscoas depois, ele está já com mais de vinte anos e mora novamente num hospital psiquiátrico. Numa outra cidade. É interno residente dum Hospital Universitário. Aqui também são vários os pavilhões. Os pátios são menores, mas os “crônicos”, como são chamados os remanescentes do setor de neurossífilis, também tomam conta do jardim. Ele está contente. O hospital fica dentro de um parque algo descuidado, mas com muitas árvores frondosas, de raízes bem estabelecidas por uma longa vida.

                        Ele gosta de viver ali. Como se houvesse voltado a morar num chão que é seu. Gosta de tudo, do lugar, dos pacientes, dos professores. E do que aprende na procura cotidiana para decifrar o enigma que cada internado apresenta. Gosta também dos colegas com quem divide a residência. De quase todos. E, principalmente, do clima. Daquele ar que sopra do passado, dos bons tempos em que nem chega a pensar.

                        Ele agora acaba de fazer a vistoria dos pacientes na Enfermaria Masculina e na Feminina e caminha para o Pavilhão dos Médicos Residentes, um pouco distante, na entrada. Lembra conversas que teve com eles, como procurou deixá-los em calma, aguardando visitas que serão feitas na Páscoa. Ou à espera do dia em que terão alta. Dias de um futuro que deverá ser bom. Recorda a paciente que lhe dissera:

                        -O senhor sabe o que significa a Páscoa, doutor? É o dia da Ressurreição. Não é só Jesus que deixa a cruz, é a vida de todos nós que começa outra vez...

                       Em seu delírio de religiosidade, ela confidenciara que havia escutado a voz de um anjo. Sim, um anjo invisível. Mas não podia dizer o que ouvira: era segredo.

   Ele sorri ao recordar a satisfação no rosto dela. Sorri também ao relembrar o doutor Bacamarte de “O Alienista” e pensa que a chave da Casa Verde felizmente está em suas mãos. Ressurge em sua mente, num lampejo, um trecho esquecido do passado. Também teve amigos imaginários; não eram anjos, porém. Não consegue relembrar seus nomes. Perderam-se, assim como o relato pitoresco feito por seus pais. Retorna ao presente, satisfeito. É o doutor e sua vida parece boa.

                     Anoitece, faz bom tempo. Sob um vento vagaroso, as árvores movem suas folhas. Tudo parece estar calmo. Os tranqüilizantes trazem repouso aos insones. Os enfermeiros estão certos de que mesmo os três pacientes mais agitados passarão bem à noite. A plantonista cansada que o sucede imagina que poderá dormir sem muitas ocorrências que venham a exigi-la. Ele lhe dá a chave do Pavilhão e lhe deseja um bom plantão.

                        E, já livre de preocupações, passa a pensar na festa que os colegas internos-residentes pretendem fazer no prédio onde moram. Para comemorar a Páscoa? Para aproveitar um pouco mais aqueles dias? Uma comemoração pequena no virar da aleluia, nada que possa incomodar os pacientes. Música, não tão alta que vá acordar os doentes. Bebida, não tão forte que possa subir demais à cabeça. Danças, aquelas da nova moda, tuístes e cha-cha-chás, todos enfileirados cantando pelos corredores da residência. Alegria, futuros doutores e nascentes psicólogas, marchando, dançando e ensaiando aqueles namoros quase ingênuos da época.

                      - Vinho, mulheres e música - diz a ele, num chavão irônico, o colega que, poucas semanas atrás, o havia levado à casa do Cavaleiro da Esperança.

                        Mas, naquele momento, não queriam saber de cavaleiros, esperanças ou política. A Páscoa de 1964 ainda estava distante, oculta nos subterrâneos de um futuro de chumbo. Lá em suas enfermarias, os pacientes dormiam a sono solto, sem o horror dos pesadelos vivos, adormecidos pelos quimioterápicos capazes de sedar seus pavores. Os moços viviam sua idade e tentavam divertir-se, embora num local que poderá ser julgado incorreto por alguém mais velho, que tenha adquirido, com a idade, também o peso de uma austera severidade. Talvez, contudo, tivessem algum receio, ou mesmo medo de mim, se soubessem que eu os observava e que poderia condenar a leviandade da comemoração que faziam...

 

                        Não é agora nenhum barulho que o faz interromper a leitura. É uma idéia súbita que vem ofuscar seu olhar. Não é possível, pensa. Como não havia percebido antes? Como tinha podido cegar-se a esse ponto? Perplexo, questiona a si próprio a enorme estupidez de sua memória. Ou de sua consciência. Ou de sua inteligência, por mais medíocre que fosse... Em seus ouvidos, ressoam os ecos de antigos sons: o cristal de um arroio escorrendo leito abaixo dentro da mata... Depois, mais forte, o barulho ritmado das canções   celebrando a vida irrefletida do “let´s twist again” ... E, num tom mais baixo, o compasso das rimas nos versos sobre saudade e sombras de laranjais... Aqueles que seu pai relembrara, em brincadeira com os netos, dentro do carro, na rua ao lado do Jardim Botânico, na véspera de uma outra Páscoa.

                       

                        Olha ao redor: onde estavam os passageiros que enchiam o salão de espera? Não há mais ninguém ali, as cadeiras estão vazias. Todos haviam ido embora? Como? Não havia notado nada... Tenta entender o que teria acontecido naquele saguão agora tão despovoado. Imagina que, mergulhando na leitura, sua mente teria caído adormecida, hipnotizada pelas palavras inscritas na superfície luminosa. Ou, melhor, em si mesmo. Em si mesmo? Sim, em suas próprias idéias, frases e palavras...

  

                        Vasculha o lugar, desnorteado. Avista um vulto num canto mais à frente. Descobre, longe, lá na frente, quase colados ao encosto das cadeiras, as duas cabeças do casal que vislumbrara antes. Dá-se conta de que devem ser os únicos remanescentes da multidão de passageiros que antes aguardavam a hora do embarque. Lá estão os dois, um junto ao outro, ainda adormecidos, formando quase uma só figura junto ao perfil da fileira de cadeiras. Ele se indaga: para onde iriam? quem seriam? Força os olhos, mas não consegue distinguir seus rostos.

  

                        Baixa o olhar e volta-se para o monitor do iPod. Tem certeza agora: o texto que estivera lendo era sobre sua própria vida. Teriam sido seus próprios dedos que o haviam digitado antes? Quando? Já pode seguir suas letras, à medida em que elas vão se agrupando. Vai lendo então o que elas estão dizendo:

 

                        Observando a pele de minhas mãos, percebi suas rugas e as manchas negras que as vão pontilhando. Descobri também que eu sou você que está lendo o que escrevo. Poderemos reencontrar enfim todos os nossos tempos. Poderemos enxergar tudo aquilo que, embora deixado para trás, torna a estar aqui novamente. Poderemos rever todas essas Páscoas, a primeira, a da mocidade e também as outras. Posso ouvir meu pai, na véspera de uma delas – a de sua morte -, em brincadeira com os netos, recitando para eles os versos da “Aurora de Minha Vida” do eternamente moço Casimiro nas cercanias do Jardim Botânico. As Páscoas, elas estão todas agora dentro de minha cabeça, fazendo parte de um mundo feito de sinapses e neurônios. Mundo que, feito de mudanças, embora mude, é sempre o mesmo dentro de meus sonhos. E no interior dos pesadelos que galopam suas noites. Sinto o sabor do chocolate misturando-se ao gosto do pão. Sim, sou eu, o menino de três ou quatro anos, que pensa ter encontrado o melhor sabor do mundo. Ouço a música animada da festa antiga no Pavilhão dos Estudantes. Sou também o rapaz que cuida dos pacientes da enfermaria e depois prepara a festa. E então me indago a respeito desse estranho, mas banal conhecimento que me faz saber que sou e serei sempre a mesma pessoa: o menino do Sanatório, com os jardineiros e as freiras; o rapaz do hospital psiquiátrico, às vezes contente da vida, outras vezes, nem tanto. Velho, menino, rapaz, adulto, aqui estou eu, sempre o mesmo. Pensando isso, não me surpreendo quando vejo uma sombra à minha frente, na fileira contígua. Parecem ser o casal que dormia.

                        -Vamos? – dizem, os dois em conjunto. – Eles estão já fechando as portas.

   A claridade da luz de algum farol lá fora entorpece minha visão. Não distingo bem a idade deles, podem ser velhos ou moços, ou até mesmo crianças. Não sei nem mais qual é a minha idade naquele momento Sei que estão sempre sendo todas. Mas, repentina, a memória irrompe num clarão que ilumina minhas lembranças. Imagino quem serão... Como não os reconhecera? Claro, são Adê e Lila e me disponho a acompanhá-los. Estou feliz com o reencontro dos velhos amigos.

                        - Vamos? – eles repetem.

                       Não sei para onde iremos, mas aceito o convite. E, enquanto a luz do saguão do aeroporto também se apaga, vamos saindo os três, atravessando a porta de mãos vagamente unidas para enfrentar a escuridão.

 

                       Cansado, apaga e fecha o Ipod. Sente sono, um sono enorme. Sente, além disso, um indefinível incômodo. Cada vez mais forte. Não consegue entender o que estava lendo. Tudo o que havia lido. Nem consegue reunir mais forças para tentar compreender. O sono o atropela, seu torpor é invencível. Pensa em Adê e Lila e depois submerge.

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