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AS TRÁGICAS FERIDAS EMOCIONAIS DO ABORTO | Imprimir |  E-mail

Com a legalização do aborto, desapareceria essa “especialidade” marginal da Medicina, a do aborteiro, que por enquanto tem um importante papel social.


O aborto é um problema que, quando tratado simploriamente, diz respeito apenas a uma especialidade médica, a ginecologia. No entanto, se nos aprofundarmos um pouco mais na apreciação da sua abrangência, constataremos logo que se trata de um dos temas polêmicos da nossa época. Com efeito, suas implicações no campo humanístico são múltiplas. Examinado do ponto de vista psicanalítico, é considerado um mal necessário, uma dramática vicissitude do destino humano que vem ganhando incremento nos últimos tempos.

Quando nos aproximamos desse assunto, a primeira questão que se levanta é esta: por que o aborto? E a resposta que encontramos mais à mão, se não nos satisfaz de todo, pelo menos nos indica alguns marcos referenciais para pensar. O abortamento seria uma trágica solução para a mulher escapar da pressão de certas condições sociais, culturais, econômicas, familiares, profissionais e de muitas outras nuanças de interesses vários, que nos forçam a aceitá-lo como um veredito. Embora todos geralmente conheçam a natureza dessas condições, convém exemplificá-las. Os locais onde funcionam, mais ou menos clandestinamente, os consultórios destinados a esse mister, costumam ser concorridíssimos, principalmente por adolescentes, inexperientes de tudo, ignorantes da função sexual e apavoradas ante a expectativa que estão vivendo. Comumente se encontram acompanhadas por uma amiga mais velha que já passou pelo mesmo transe ou pela mãe, amiga e compreensiva, ou, o que é mais freqüente, com cara de reprovação, mais preocupada em salvar a honra da família do que ajudar a filha. Mas outras vezes são mulheres feitas, veteranas dessas brigas, que ali comparecem, pagando tributo a um descuido. Conheci uma senhora que, após o sétimo aborto provocado, procurou levar uma gravidez a termo. Seus impulsos filicidas, porém, não o permitiram, sobrevindo, no quinto mês de gestação, um aborto espontâneo. Mas essas são as que podem pagar bem e procuram médicos “especializados”. A imensa maioria das mulheres pobres recorre aos serviços de aborteiras broncas, correndo riscos de vida. Quase sempre se infectam. Muitas morrem. E nem se diga que não tiveram carradas de razões para apelar a esse expediente, ante a ameaça de agravar a fome da prole já numerosa. Ao lado desses motivos de ordem econômica, existem ainda claras indicações de abortos decorrentes de enfermidades orgânicas. E também de doenças mentais. Ou de uniões socialmente incompatíveis. Ou ainda quando a gravidez resulta dum episódio passional. A lista de circunstâncias justificadoras do aborto como solução para uma gravidez não aceita é enorme. O que importa, porém, antes de outras considerações, é salientar aspectos e conseqüências do abortamento, cuja ferida emocional dificilmente cicatriza.

A predisposição à prática do aborto tem raízes infanto-juvenis, provindas do relacionamento com os pais, especialmente a não-aceitação da feminilidade da filha por parte da mãe, comportamento, esse, que se manifesta de múltiplas maneiras, sutis ou grosseiras, desde o não-estímulo aos brinquedos femininos até o não tomar conhecimento da menarca da menina, deixando-a viver essa experiência, não raro chocante, conforme o local e a hora em que sobrevém, inteiramente desamparada. Perdida na encruzilhada, a púbere conclui como a personagem de Guimarães Rosa: “Mulher é gente muito infeliz!”. Essa será a sua primeira grande vicissitude como mulher. Suas repercussões destrutivas na evolução da feminilidade irão longe, chegando a contribuir para que a menopausa transcorra tempestuosamente.

Apesar dos motivos mais racionais que possam estar em jogo em cada caso, a elaboração do sentimento de perda e a culpa pela conduta auto e heterodestrutiva, que se concretiza no ato de raspar a mucosa uterina e destruir o embrião ou o feto, demanda um exaustivo trabalho mental para o qual poucas mulheres estão emocionalmente habilitadas. Portanto, o seu efeito patológico é perdurável. E não só na mãe como também no pai. Com efeito, na área puramente psíquica, é freqüente que sobrevenham idéias paranóides ou sentimentos depressivos, uns e outros perturbadores da conduta no campo social e familiar e no desempenho profissional. O pai identifica-se, de um lado, com a mãe, cujo ventre sofreu a penetração agressiva dos ferros que esvaziaram seu útero. De outro, identifica-se com o feto desmanchado. Esta seria talvez uma das gêneses das cefaléias crônicas nos homens, além de outras manifestações psicossomáticas. Mas ambos os pais costumam socorrer-se do mecanismo de defesa chamado negação, que consiste em minimizar a significação interna da dolorosa experiência.

O aborto espontâneo e o provocado diferenciam-se, psicologicamente, pelo fato de que, no primeiro caso, está excluído o desejo consciente de evacuar o ser em gestação. No provocado, evidentemente as circunstâncias são outras, há uma decisão. Entretanto, quando se pesquisam em profundidade ambos os tipos de abortamento, sobretudo quando os espontâneos são repetidos, encontra-se em certos casos semelhanças de motivações inconscientes, entre elas um mau relacionamento afetivo com a mãe e a não-resolução satisfatória do conflito edípico. Embora não desça a detalhes, convém registrar que o aborto espontâneo não está isento de problemática psicológica, sobretudo pelas dúvidas que acarreta quanto à integridade do aparelho reprodutor. Dúvidas, essas, que nem sempre a mulher comunica, mas que daí por diante lhe amortecem o calor de vida.

A cada aborto segue-se um trabalho de luto, que transcorrerá com maior ou menor tumulto interno conforme a natureza das relações com o objeto perdido. Como no aborto provocado a perda do feto não ocorre involuntariamente, mas resulta duma deliberação consciente, tomada às vezes por uma verdadeira gangue — os pais da gestante, seu marido e ela própria — que autoriza a mão que vai consumar o crime social. Porém é um engano pensar que a novela terá um happy end com a volta para casa, de étero-curetado. Sangrando um pouquinho ou nem isso. A ferida da mucosa fecha mais depressa do que a outra, a invisível, a impalpável, a inefável. E segue-se o trabalho de elaboração do luto, que é compartilhado por todas as pessoas implicadas no fato, mais diretamente o companheiro. Se houver um reconhecimento pleno da responsabilidade pelo acontecido, provavelmente mãe e pai experimentem pesar. Se predominar a negação, observa-se uma recusa a conceder importância ao sucedido. E a elaboração desse luto, isto é, o processo psicológico de ajustamento à situação “desmanchada”, torna-se mais lenta, conflituosa, influenciando no relacionamento do casal, e deste com os filhos que já tinha e com os que terá, afora prováveis alterações psicossomáticas. Meses ou anos depois, se os protagonistas do drama cruento vierem a analisar-se, ficarão surpresos ao verificarem o quanto de seus males se deve àquele fato. Com isto pretendo significar que o ato abortivo jamais permanece estanque, recluso na área da intervenção. Os demais setores da personalidade são infiltrados pelo sentimento de culpa que fatalmente sobrevém. Um dos resultados negativos consiste no empobrecimento das atividades sublimatórias, reduzindo-se a criatividade.

Uma importante contribuição da psicanálise a este tema consiste no fato de ter verificado que os fenômenos neuróticos ou psicossomáticos, conectados a abortos, expressam-se também no marido. A influência morbígena das vivências de abortos pode vir desde a infância, nos casos, tão comuns, aliás, em que o indivíduo acompanhou, criança ainda, a atmosfera apreensiva que envolveu a ou as intervenções em sua mãe.

Com estas considerações, viso chamar a atenção para os conteúdos psicológicos subjacentes a qualquer aborto, não obstante as razões mais lógicas que o determinem, sejam pessoais, familiares, de ordem social ou ligadas ao trabalho. É que o nosso consciente, conforme a figura clássica de Freud, representa apenas um lago em relação ao oceano que é o inconsciente. E quando contrariamos os afetos e os instintos, dificilmente deixa de ocorrer algum maremoto. Entretanto, a Medicina tem o dever de encarar a questão “aborto” cientificamente, trazendo suas sugestões para solucioná-la. No consenso unânime dos psicanalistas, fora duma educação sexual ampla e franca não há outra maneira de encaminhar a solução do problema. Quando me refiro à educação sexual, incluo naturalmente a liberdade sexual, a autêntica, a interna, que abrange os conhecimentos necessários para o uso tranqüilo dos anticoncepcionais. Neste campo, todos sabemos que a Medicina ainda não chegou à garantia absoluta, porém já andou muito. Possivelmente não esteja longe o dia em que se há de encontrar a solução ideal. Ideal, no sentido das aspirações médicas mais genuínas, as da profilaxia. Porém, até lá, por que não oficializar o aborto, para que deixe de ser urna prática clandestina, o que agrava o sentimento de culpa das pessoas que se submetem a essa intervenção? E com isso também desapareceria essa especialidade marginal da Medicina, a do aborteiro, palavra que escrevo aqui sem nenhuma deixa pejorativa. Pelo contrário, reconheço que esses colegas desempenham um papel social, preenchem uma lacuna na estrutura mais íntima e vulnerável da sociedade, que não teve até agora arrojo e saber para tratar deste problema com a objetividade necessária. Entretanto, como eles também devem estar impregnados de culpa, tendem a marginalizar-se, progressivamente, restringindo sua atividade profissional cada vez mais a essa prática. Desta forma, desatualizam-se e perdem as chances de reparação que a práxis médica regular proporciona.

Quanto à profilaxia das desadaptações sobrevindas após o aborto, convém ressaltar a importância que adquire, nesses casos. a conscientização plena, por parte da mulher e do companheiro, de tudo que aconteceu, antes, durante e depois da intervenção, tanto na área somática como na mental. Um elemento negativo que conspira contra isso é a anestesia. Com efeito, a anestesia, produzindo uma amnésia lacunar, colabora com a tendência defensiva da mulher a negar a relevância do ocorrido. Por sua vez, o marido também reforça suas defesas contra a ansiedade do momento, racionalizando que, por sorte, a pobre não sofreu. Não obstante, todos reconhecemos que a anestesia é indispensável. Como proceder, então, se achamos que devemos procurar fazer a profilaxia dos distúrbios emocionais inerentes ao aborto e se, no entender dos psicanalistas, a melhor maneira para isso é a conscientização do fato?  Penso que deverá ser o próprio médico executante do aborto que deverá tentar estabelecer com o casal um tipo compreensivo de relacionamento médico-paciente, capaz de levar os três a uma abordagem corajosa e franca do problema em foco. Caberá ainda ao médico estimular o casal para que, entre eles, não evitem o assunto. Mas para que um médico competente se disponha a um procedimento de tamanha dignidade profissional, é preciso que o abortamento provocado saia da clandestinidade. E mais, que se encarreguem dessas intervenções os obstetras e ginecologistas qualificados, de permeio com suas atividades clínicas e cirúrgicas correntes, sem jamais fazer do aborto o exercício de uma habilidade delituosa, uma espécie de medicina debaixo calão.

Quanto aos quadros psicopatológicos que costumam apresentar essas pacientes, quando se manifestam com maior gravidade, são às vezes do tipo confusional, com angústias persecutórias intensas ou então declaradamente melancólicas. Se não forem adequadamente tratadas a tempo, poderão desagregar, entrando em surto esquizoparanóide. Naturalmente que, para que sobrevenham estados mentais tão regressivos, deve influir de modo sensível a psicopatologia prévia de cada caso.

Um aborto, de embrião ou de feto, tem sempre o significado de uma experiência traumática. Nas abordagens médicas ou nas reportagens jornalísticas sobre o tema, nota-se grande dificuldade de penetração no seu sentido menos superficial, interpondo-se, entre o estudioso e a matéria, elementos emocionais perturbadores e deformadores do enfoque que se pretenda dar, derivados de convicções religiosas, ideológicas, sociais ou meramente supersticiosas. É que a simples aproximação teórica do problema reaviva núcleos filicidas da personalidade, temores infantis de castração genital e tendências sadomasoquistas.

Nas pacientes e em seus maridos, verifica-se com freqüência, depois de um aborto, o surgimento de sentimentos depressivos, de sensações hipocondríacas e de temores fantasistas de aniquilamento. Mas de um modo geral essas pessoas tendem a não aceitar nenhuma conexão entre a sintomatologia atual e o abortamento, procurando tratar o assunto desdenhosamente, como se nada do acontecido tivesse maior importância, em lugar de proceder a uma investigação tão detalhada quanto possível em torno do mau sucesso. Para tal procedimento das pacientes, porém, contribui muito a atitude dos médicos, que reagem também maniacamente, desestimando o sucedido. Acontece que, na experiência pessoal ou familiar dos médicos, já houve casos semelhantes, vivenciados de maneira igualmente angustiosa. Por isso, em face de um quadro destes, consciente ou inconscientemente, reativam-se velhas ansiedades, perturbando a objetividade da relação médico-paciente, ao extremo de se estabelecer um ponto cego referente à problemática psicopatológica que nos ocupa. Chamo a atenção para estes aspectos da questão porque em geral os médicos não se detêm para examinar suas próprias reações diante de semelhante material clínico.

Em síntese, hoje em dia, os ginecologistas, os obstetras, os clínicos internistas e os psicanalistas e psiquiatras, mais intimamente do que os outros colegas, graças aos estudos psicanalíticos realizados sobre o tema, sabemos da extensão do significado traumático que implica uma curetagem uterina. Com as técnicas atuais, as mulheres que dispõem de recursos financeiros sofrem um mínimo somaticamente, porém o traumatismo psicológico se impõe. E daí por diante, inconscientemente, a mulher buscará meios de castigar-se pelo “crime” cometido, arrebatando para o mesmo vórtice o companheiro, cúmplice que talvez pretendesse ficar impune. Quando a mulher já é mãe de família, seus filhos, captando o que aconteceu ao seu redor, na sua casa, com sua mãe, passarão a temê-la, como pessoa perigosa, embora não verbalizem tais pensamentos sinistros, mas os dramatizam em sintomas fóbicos, que representam deslocamentos do verdadeiro objeto desencadeador do medo mórbido, a mãe. Todos os pediatras e analistas de crianças sabem o quanto são comuns as fobias infantis.

Há pouco li uma exaltada defesa do aborto, feita por um colega. Num congresso médico. O seu tom era de quem vê no aborto oficializado a salvação nacional. Como o leitor deve ter percebido, eu não vou a tanto. Como outros psicanalistas, considero o abortamento um mal necessário enquanto a educação sexual, o uso adequado dos anticoncepcionais e a lei não o transformem num mal desnecessário.

Importa ainda salientar que a realização de abortos pode acarretar distúrbios da identidade feminina, sobretudo em mulheres que já apresentavam alguns transtornos dessa natureza na esfera psicossexual. Não é raro, pois, que a mulher exiba, após, comportamentos masculinos e que se exacerbe nela a chamada “inveja do pênis”, síndrome complexo, sobrevindo esterilidade e frigidez. Uma das causas de tais perturbações da identidade, segundo opinam alguns psicanalistas, que se aprofundaram nessa pesquisa, resulta da identificação com o objeto perdido, tal como ocorre nos lutos habituais. A imago do feto morto que a mulher carrega como um fantasma e com o qual se identifica, ainda que às vezes apenas parcialmente, não só desencadeia e mantém distúrbios na área genital, como também, através do mecanismo, tão comum, de deslocamentos dos genitais para os processos mentais mais complexos da sublimação, empobrece sua capacidade reparadora e, conseqüentemente, decresce sua aptidão para os atos sublimatórios, que se caracterizam por atividades livres das pressões da tensão instintiva, redundando em ações estética e socialmente louváveis.

A psicanálise mantém a convicção de que, na medida em que a mulher se libere da situação de dependência do seu ambiente familiar e social, mais facilmente encontrará as soluções mais favoráveis às vicissitudes da feminilidade, entre elas a gravidez não desejada.


Cyro Martins
IN: Revista OITENTA, no. 3,  pg.139-45, Porto Alegre, L&PM Editores.