X Jornada CELPCYRO

img banner

Informe CELPCYRO

Cadastre-se e receba nosso INFORME
Nome
E-mail*
Área de Atuação

Redes Sociais

  • Twitter
  • Windows Live
  • Facebook
  • MySpace
  • deli.cio.us
  • Digg
  • Yahoo! Bookmarks



Carmen Maria Serralta e um outro Borges  E-mail
Fronteiras Culturais

 


Reflexões sobre uma leitora e sua pesquisa em tom de ficção


 

Uma leitora privilegiada pela sensibilidade, agudeza de visão de mundo,  fluidez de linguagem, cuja simplicidade poderia enganar um desavisado. Uma fronteira que confunde o viajor incauto, pelo traçado invisível  entre duas cidades, dois países. Assim são Carmen Maria Serralta*  e Santana do Livramento e Rivera. Revelaram sutilezas, embrujo e surpresas, especialmente significativas para dar vida ao nosso projeto "Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera" e se tornaram referenciais para os desdobramentos desse trabalho. 

A autora nos apresenta agora outra fronteira, com o relato dessa "travessia" de Borges, que admira e encanta seus leitores.  Uma surpresa a cada página, lida ora como  narrativa ficcional, ora como pesquisa minuciosa, sempre com texto coerente e  convincente, prendendo a atenção do leitor,  ofertando-lhe um perfil do "brujo" como um indivíduo quase igual a tantos outros. E, silmultaneamente,  enriquecendo nossa imaginação e reflexão com e sobre as fontes criativas - e reais - que alimentam a obra borgiana; contribuição decisiva para a bibliografia desse fantástico autor.    

Maria Helena Martins

 

* Carmen Maria Albornoz Serralta Hurtado é natural de Sant'Ana do Livramento (RS) - na fronteira com Rivera (Uruguai) - onde reside. Professora primária e de música - ensino pianístico, com terceiro grau incompleto.

Algumas atividades desenvolvidas em sua cidade natal: foi coproprietária da "Galeria Ponto d'Arte - promoções culturais (1984/1989), bem como curadora da "Coleção Maluh de Ouro Preto" do Museu de Arte da ASPES/URCAMP (1990/1995). De formação pouco ortodoxa nas línguas espanhola, francesa e inglesa, tem realizado traduções a partir desses três idiomas.

Fez parte do grupo da Aliança Francesa premiado - MENÇÂO ESPECIAL - no Concurso Internacional Paroles de Lecteurs (2001) organizado pela TV5 e CAVILAN da França. Integra o grupo Club de Lectoras, que participou do Projeto FRONTEIRAS CULTURAIS (2002), do CELPCYRO. Desde 2006 é membro efetivo da Academia Santanense de Letras. Em 2011, lança A fronteira onde Borges encontra o Brasil   (Porto Alegre, Movimento), seu primeiro livro, que já surge como obra marcante. 




PREFÁCIO   

 

De marcos e marcas

 

Este livro [ A fronteira onde Borges encontra o Brasil] -nasceu com uma incontestável vocação: a de tornar-se referência. Ao reconstituir um período da vida de Jorge Luis Borges quando, nos idos de 1930 do século passado, o escritor conheceu os verdes do nosso pampa, Carmen Maria Serralta, após pesquisa minuciosa, nos revela tanto as lembranças que a visita do escritor deixou na fronteira do Uruguai com o Brasil quanto a marca, indelével, que um espantoso acontecimento presenciado por ele em Santana do Livramento imprimiu no imaginário e, consequentemente, na obra do genial argentino.

A fronteira é o Aberto, vislumbre do infinito, fim e recomeço, o que nos limita e expande ao mesmo tempo, ou, como diria Fernando Pessoa, um pórtico para o impossível. Mas a estada de Borges em nossa fronteira, que alguns poderiam julgar fantasiosa ou difícil de provar, está agora muito bem documentada no livro de Carmen Maria. E assim como precisamos observar de perto os marcos na campina para saber de que lado ou em qual dos dois países deixamos nossas pegadas, o texto começa por registrar muitos relatos para fazer do esparso o conciso, do esquecido, o reencontrado, do duvidoso, o comprovado. Entrevistas, cartas, alusões, citações, velhas e novas fotografias ajudaram a reconstruir pouco a pouco a aventura borgiana em nossa terra, no ano de 1934. A linda casa branca (Las Nubes) em estilo art déco, que pertenceu ao célebre escritor uruguaio Enrique Amorim e a Esther Haedo, prima de Borges, continua intacta na colina próxima da região ainda conhecida como a "coxilha de Haedo", nome que ressoa em nossa língua e evoca antigos poetas, rapsodos, os aedos da Grécia arcaica. Sabemos que o autor do Aleph se considerava acima de tudo um poeta. Também intacta está a piscina que "mitiga e domestica o verão", como afirmou o poeta Borges, e a misteriosa estátua de uma mulher, que mais parece uma carranca, "uma figura de proa num pedestal".

Carmen Maria fez várias peregrinações aos locais visitados pelo escritor, consultou jornais, revistas, releu entrevistas, conversou com parentes e relembrou informações, como as do antigo livreiro de Rivera, um senhor encantador de nome Julio López. E acima de tudo, percorreu incansavelmente a obra de Jorge Luis Borges para nos mostrar todas as vezes que ele menciona ou descreve o fato espantoso que o marcou.

Em sua estreia em livro, a musicista e tradutora Carmen Maria Serralta revela-se agora, além de uma historiadora apaixonada, alguém capaz de restituir à palavra amadora sua primitiva dignidade, a de quem ama e respeita o que faz.

 

Rachel Gutiérrez **


* * Rachel Gutiérrez é poeta, tradutora, dramaturga, conferenciasta, pianista. Brasileira de Santana do Livramento (RS), de onde partiu para estudar na Áustria, França e Alemanha. Licenciada em Filosofia pela UERJ , transformou seu projeto de tese de doutorado , sobre a estética da poesia na obra de Lou Andreas Salomé, em tema de uma de suas  peças rwatrais. Criou, com Ester Schwartz, a ALACL (Associação dos Leitores de Clarice Lispector) . Conselheira Editorial da Editora Rocco do Rio de Janeiro. Feminista atuante, escreveu ensaios que passaram a ser referência do movimento, como O Feminismo é um Humanismo.  Tornou-se argonauta assídua no blog português A Viagem dos Astronautas. 
 

 

 

                 --------------------------------------------------------------------------------------------------


Borges na fronteira

 

Um jovem poeta argentino passa férias em casa de uma prima e de seu marido escritor, em uma localidade da fronteira entre o Uruguai e o Brasil. Nos anos trinta do século passado, a paisagem agreste intocada, o vasto horizonte desértico, os homens rústicos, isso basta, e algo de bárbaro perturba a emoção do jovem acostumado às cidades do Prata. Quando hospedeiro e hóspede vão a um café, a fortuna os aguarda sob a forma da morte e do crime, e deles faz testemunhas de um assassinato grotesco. Nas páginas ímpares da narrativa sutil tecida pela sensibilidade da autora Carmen Maria Serralta, tem-se a impressão de acompanhar o cenário de um conto, que de fato viria a existir em mil folhas de relatos posteriores, e tudo aparentemente seria um sonho, não fora que o então jovem poeta se tornasse um dia o mito Jorge Luis Borges, muito real homem do mundo do nosso tempo, fato que a autora nos apresenta com a graça de uma escritora de ficção.

Por outro lado, em linguagem correta e elegante, ao apresentar pela primeira vez, ou reapresentar com novo olhar, essa passagem de experiência que – a autora o prova - criaria laços permanentes do escritor com esse recanto do pampa que é a fronteira do Brasil com o Uruguai, através da visita a Santana do Livramento em 1934, Carmen Maria, de modo consciente e erudito, providencia uma contribuição importante para os estudiosos da literatura latinoamericana, em especial aos estudiosos brasileiros de Borges, entre os quais muitas vezes se apresentam as duas visitas do escritor maduro a São Paulo como as únicas do célebre autor ao Brasil.

Além disso, é evidente, a lente que reproduz o cenário e o evento, em busca da verdadeira relação de um com o outro, além de inspirada e séria, é uma lente amorosa, onde se expressa o amor pelo cenário histórico e geográfico, assim como a admiração pelo escritor que o sofre. O mesmo olhar mostra a paisagem desértica como campina cheia de encanto, como caminho de emas etéreas e de silenciosos cavaleiros, que apenas se distinguem da Coxilha Negra. Por isso, pode-se dizer sem medo de exagerar que esse livro, breve e belo, enquanto contribui para o conhecimento no domínio dos estudos próprios, também expressa, em movimentos líricos, a terra natal da autora - terra que, estou certa, sentir-se-á homenageada.

 

Suzana Albornoz

 

--------------------------------------------------------------------------------------------------

Posfácio

 

No poema "A un poeta menor", Borges se pergunta:

 


Dónde está la memoria de los días

Que fueron tuyos en la tierra, y tejieron

Dicha y dolor, y fueron para ti el universo?

 

A pesquisa que ora se publica, com toda a dedicação e fineza, nos traz não apenas um evento, mas sua inserção num contexto histórico preciso, que não somente acrescenta, a tantos estudos sobre o poeta, algo novo, mas redime, em sua narrativa, uma dimensão que poderia ter-se perdido no tempo e na soma de análises de Borges. A autora responde à pergunta do poeta afirmativamente, de certo modo na contramão dos versos que seguem à pergunta:

 

 

El río numerable de los años

Los ha perdido; eres una palabra en un índice.

 

O grande Borges certamente não teria o destino do poeta menor sem o empenho dessa serena apresentação de um acontecido, quase uma miniatura na grande obra. É essa, justamente, a importância dessas páginas que acrescentam algo que se poderia perder nos ruídos da grande literatura.

Borges trabalhava muito, em sua obra, com as metáforas do olvido e da memoria, chegando a se perguntar, no poema acima referido:

 

Pero los días son una red de triviales miserias

Y habrá suerte mejor que la ceniza

De que está hecho el olvido?

 

Carmen Maria Serralta não é apenas mais uma autora que procura redimir Borges de sua melancolia. A autora, antes, faz como o autor escreve em seu soneto Del Vino. Como o vinho:

 

 

nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

 

A autora aprendeu com os versos do poeta a levar a sério mesmo um detalhe de sua história:

 

Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia

Como si esta ya fuera ceniza en la memoria.

 

Mas não permite com as análises de um evento vivido por Borges na fronteira, entre Livramento e Rivera, que o vivido se torne cinzas.

 

Borges mesmo, na sua "Milonga de Albornoz", nos traz os versos que revelam o jogo desta luta entre o esquecimento e a lembrança:

 

 

Pienso que le gustaría

saber que hoy anda su historia

en una milonga. El tiempo

es olvido y es memoria.


 

Pode parecer que a discreta forma desse trabalho de investigação representa apenas mais uma forma de erudição para falar do poeta. Mas, na verdade, num poema de sua obra tardia, Borges como que nos pede um gesto, mesmo desapegado, para continuarmos a sua história:

 

La memoria no acuña su moneda

Y,  sin embargo, algo se queda.

 

Certamente, o poeta agradeceria esse esforço quase silencioso que preserva algo que se poderia ter perdido:

 

Que el mármol no ha salvado

Surgió la valerosa

Y singular idea de inventar la alegría.

 

Borges diz "otoños de oro la inventaran", isto é, foi o vinho "que nos prodiga su música, su fuego y sus leones".

 

Carmen Maria Serralta nos introduz, com seu livro sobre um evento de fronteira, na grande história de Jorge Luis Borges.

 

Ernildo Stein

 

--------------------------------------------------------------------------------------------------

 

LEIA o relato de Carmen Maria Serralta na íntegra.

Temos o prazer de apresentar uma nova argonauta – a escritora brasileira Rachel Gutiérrez – tradutora, poetisa, dramaturga, conferencista eImagem1pianista com formação clássica. Nasceu em 1935 em Sant’Ana do Livramento (Rio Grande do Sul), estudou na Áustria, e  passou algum tempo em França e na Alemanha. Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, obteve o grau de Mestre no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O seu projecto de dissertação doutoral, que  versava sobre a estética da poesia na obra de Lou Andreas Salomé, veio a constituir o tema de uma das suas peças teatrais.

Nos anos 80, com algumas amigas, fundou o grupo Mulherando e, como representantes do Movimento Feminista, foi a primeira mulher a participar de uma candidatura maioritária (Vice-Governadora) nas eleições cariocas de 1986. Em 1994 criou com Ester Schwartz, a Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector.

Entre suas obras publicadas, destacamos o seu ensaio O Feminismo é um Humanismo, (uma obra de referência no âmbito da luta pela plena igualdade de géneros.) Antares-Nobel, Rio/São Paulo, 1985. A segunda edição foi lançada em 2012. Outras obrasMulheres em movimento, homens perplexos, (coletânea de artigos) Madana, Rio, 1987; Comigos de mim, (poesia) Massao Ohno Editor, São Paulo, 1995; Em 2001 apresentou a peça Palavra de Mulher.Cantares, (poesia) Booklink, Rio, 2002 Narcisismo e Poesia , (ensaios extemporâneos) Booklink, Rio, 2005.

Traduziu para português, entre muitos outros, obras de  David Hume, Hélène Cixous e Antonio Tabucchi.

Bem-vinda à Argos, Rachel Gutiérrez.