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A Dama do Saladeiro - Cyro Martins  E-mail
Estante do Autor - histórias vividas e andadas

A dama do Saladeiro 2

 

 

- Huxley es demasiado frio, cortante...

Estas palavras foram proferidas com uma inteligência tão natural, sem a menor sombra de esnobismo, que me encorajei a sorver o chá russo que esfriava à minha frente. Falávamos do Contraponto, recém-lançado na tradução do Erico Verissimo, como antes estivéramos comentando A Montanha Mágica, de Thomas Mann, remetida às pressas de Montevidéu, em francês. Quanto ao livro de Huxley, a dona da casa tinha restrições a determinados aspectos, embora o respeitasse na sua estrutura monumental. Dona Ophelia exteriorizava suas opiniões numa prosa fluente e límpida. Também eu tinha ou pensava ter idéias a emitir, mas me faltava desembaraço. Seria capaz de discursar para uma multidão, porém, diante de três ou quatro pessoas de certo nível intelectual e que não fossem mais ou menos chegadas a mim, não ia além de poucas frases. E isso mesmo descosidas. Assim, meio forçado a me pronunciar, porque todos se viraram pra mim, de tudo o que havia pensado ao ler o riquíssimo livro, meus lábios apenas deixaram escapar esta frasezinha ridícula:

- É um escritor admirável!

Ora, bolas! - exclamo hoje, quase cinqüenta anos depois. Certamente fiquei vermelho, porque senti uma súbita onda de calor. Cheguei a esboçar um gesto para palpar o rosto. Mas os cotovelos estavam rígidos. Sentia-me anguloso, tremendamente desajeitado. Entretanto, algo me impelia a dizer ou fazer qualquer coisa. Até quando iria me limitar somente a ouvir? Minha homenagem ao seu espírito, dona Ophelia. De resto, se fosse justa, ela não deveria esperar de mim muito mais do que eu estava me empenhando em dar. Tanto mais que eu não era nenhum intruso, fora a convite. Talvez ela esperasse de mim uns ares mais lunáticos. Mas incontestavelmente eu pertencia ao gênero contemplativo e ouvinte.

Aqueles meses passados na mansão do Saladeiro São Carlos seriam necessariamente períodos de exílio da poetisa Ophelia Calo Berro de Ribeiro, autora de dois livros de versos - El Árbol Joven e Saudade en Plenilunio - elogiados pela crítica rio-platense e dos quais eu gostava muitíssimo. Exílio voluntário e talvez por necessidades de interesses, pois a herança do saladeiro me parecia que tinha lá os seus embrulhos. Mas naqueles chás e contemplando as glicínias do pátio, esses assuntos mesquinhos não vinham à tona, nunca.

Agora, acho que ninguém notou o meu encabulamento e talvez nem tenham ouvido a banalidade que eu disse, atentos que estavam todos à senhora que continuava a centralizar a conversa, da qual me ficou, como um vestígio ostensivo de memória enquadrado naquele entardecer, esta lembrança, verdadeira ou falsa, embora isso não importe para fins poéticos:

- Nunca vi uma galeria tão extensa e estupenda de cínicos, corno neste livro! Eu me animei:

- Chega a sangrar. Corresponderá a um retrato fiei do meio mundano e intelectual de Londres?

- Claro, a efervescência caótica do pós-guerra é a sua fonte de inspiração.

Ela se pronunciou assim, incisiva, e me dirigiu seus olhos apertados e negros, aguçados de interesse, estimulando-me a prosseguir. Porém a minha verve esgotara-se naquele arranco. Volto a me autocriticar: o que eu dissera não teria sido uma ingenuidade tremenda? O melhor seria falar sobre mim mesmo, confessar-me, matando as ilusões que por ventura a senhora tivesse a meu respeito. E mentalmente fui contando, enquanto me serviam mais chá com "tostadas": "Eu nunca me encontrei numa mesa como esta. Saí da campanha, menino de onze anos, para o internato dos jesuítas. Do internato, para pensões de terceira. Meus amigos eram pobres como eu e todos pertenciam ao clube da poesia. Por isso conversávamos tanto, até alta madrugada. Das pensões de madeirame carunchado, vim direto para o Batista. Como a senhora vê, eu não sou manso de conveniências sociais. Eu não passo dum rapazinho xucro!"

- Joga bridge?

Não, eu não jogava bridge, não jogava mesmo coisa nenhuma. Socialmente eu era um não iniciado.

- E não faz questão de aprender.

- Nenhuma.

Ela se inclina para a frente, expressivamente, expondo à luz a meia face na qual sobressaíam o nariz afilado e o discreto prognatismo da arcada superior, que lhe imprimiam à fisionomia um entono simpático e insinuante.

- E não quer aprender? Me encorajei e resolvi dar uma de grande: - Sei que todas essas pequenas diversões fazem parte da engrenagem social, mas o meu fraco ou o meu forte é pelas maiores.

- E o que entende pelas maiores?

- Por exemplo, em vez de jogar cartas, prefiro ler.

- Mas há ambientes e ocasiões que não comportam a leitura e sim o jogo. Daí a vantagem de ser versátil.

- É a extraordinária qualidade que admiro na senhora. Além de grande poetisa, é uma dama de sociedade, de alto estilo.

- Sei muito bem o que você está pensando de mim, das futilidades sociais, etc. Quando eu era pouco mais moça que você... Bem, a literatura é a vida na medida em que a substância da ficção é sugada nesses meios que geralmente enfadam os puros intelectuais como você. O escritor, ou quem pretende sê-lo, precisa se misturar com o suor, com a dor, e com as alegrias do semelhante.

De acordo, porém o fraco estímulo do chá se esvaía. Começava a me enredar nas respostas e ia progressivamente recaindo na timidez inicial. A interlocutora exercia sobre mim um domínio lisonjeiro e certa sedução, não obstante suas feições fossem belas apenas espiritualmente. Grande dama, mas sobretudo a primeira mulher culta e de excepcional sensibilidade poética que surgia no seu caminho.

Tudo isso eu vinha apenas pensando, recostado no carro, que rodava nas pedras ao trote da parelha lerda, conduzida por Jesus, ou nem conduzida, porque os animais iam sozinhos. Na verdade, Jesus cabeceava. Sim, Jesus, o carreiro que me levou, com uma paciência invariável, por todas as ruas e veredas de São João Batista do Quaraí durante os idos de 1934, 1935 e 1936. Esse diálogo era simples devaneio. Eu nem conhecia ainda dona Ophelia, a herdeira do saladeiro, de onde eu regressava. Não me defrontara numa mesa - toalha de linho alvíssimo e engomada, talheres importados e louça de porcelana e outras finuras mais que fugiam ao meu conhecimento - com a autora de El Árbol Joven e Saudade en Plenilunio. Este último título denunciava seu amor ao Brasil. Casara com um são-ioanino, rapaz de vocação principesca, bem mais moço que ela, pobre, elegante, ocioso, socialmente irrepreensível. Eu acabara de sair, sim, dum rancho apertado tão miserável e fedorento quanto os demais da redondeza. Estivera tentando salvar uma criança estrangulada pelo crupe, naquela rotina de todos os dias e inglório cravar de dentes na polpa da miséria. Aquele rancho ficava nas imediações do Saladeiro, e o Saladeiro ainda gozava de prestígios de mito na minha fantasia. Tratava-se duma antiga charqueada, desativada desde anos. Os galpões, os varais, os mangueirões de pedra, a imponente mansão do dono, Dom Emílio Calo, o casario dos trabalhadores já desmoronando, os restas de canteiros no jardim, os arvoredos depenados, o pomar já improdutivo, todos esses detalhes e relevos integravam o cenário de ruídos por onde pervagam sombras de outroras prósperos.

Quantas vezes me demorei, absorto e anônimo, extasiado diante dos restos daquele coliseu crioulo, absolutamente sem propósitos, a não ser os poéticos, enquanto a aragem penteava tênue a copa dos arvoredos e as horas passavam, ao tranco ou a galopito, conforme o ritmo da imaginação, sem que eu reparasse que passavam, numa seqüência de ecos de antanho!

Sempre que me acontecia um chamado ali por perto, fugia pra lá depois, como se não tivesse outros compromissos. As ferramentas enferrujadas, as engrenagens entorpecidas, os caldeirões, as alavancas, os varais para a secagem do charque, as cercas de pedra dos manqueirões com arrogâncias de fortaleza, tudo enorme, deixavam-me adivinhar, naquelas contemplações demoradas, a força deteriorada dos materiais. Sentia ganas de pôr as mãos em concha diante da boca e gritar num apelo de vida àquelas energias paralisadas

Um dia fui conversar com o cuidador da balança, um sujeitinho fraco, envelhecido precocemente, olhos cinzentos, melancólico sobrevivente dos tempos áureos da charqueada. Falava com calor e nostalgia de todo o desmoramento que o cercava e alimentava esperanças loucas de que um dia aquele formidável jogo de engrenagens se pusesse outra vez em movimento. Mas a sua emoção cresceu de ponto quando tocou na menina dos seus olhos, a balança de pesar novilhos gordos. Já de anos não fazia outra coisa senão vigiá-la, para que algum maleva não a estragasse. "Veja, doutor, como está perfeita!" E atirou uma pedra no prato imenso, no qual haviam pisado milhares de cascos de boi. A balança oscilou. Nos olhos do homenzinho decrépito luziu uma felicidade.

Aos solavancos do carro, que a marcha vagarosa atenuava, minhas fantasias e lembranças me transportaram para uma façanha dos dias de guri campeiro e curioso. O Saladeiro abrira a temporada de matanças. Meu pai precisava ir até lá falar com alguém. Alguém de importância na chefia do estabelecimento. E a maneira de pegar o homem, só indo muito cedo, de madrugada. Depois de iniciado o massacre da tablada, podia-se riscar da idéia qualquer intento de aproximação a Dom Agustín, braço direito de Dom Emílio. Assim, chegamos antes do clarear do dia. Me extraviei de meu pai, porque queria ver tudo. Encarapitado nas altas cercas de pedra, acompanhei o reponte da boiada para a encerra naquela série de mangueiras, que iam se apequenando progressivamente, até desembocar na última, do tamanho dum brete afunilado, onde os animais se apertavam, pisoteavam-se, chocavam os cifres e resvalavam os cascos nas lajes escorregadias, molhadas de estrume verde. Ia começar a carnificina. De cima da cerca, um indivíduo corpulento reboleava o laço e atirava, ágil. Não errava nunca. De cada vez circundava o olhar, ufano da sua destreza e como que pedindo aplausos. Sentindo-se laçado pelos chifres ou pelo pescoço, o animal berrava, dava corcovas, meio trepava sobre os companheiros de sina, mas logo uma roldana girava e ele ia sendo arrastado, tomado duma fúria imponente, a língua de fora e os olhos salientes, rumo a uma barreira reforçadíssima de madeira que subitamente se erguia e então reluzia no ar o punhal do desnucador, um sujeito de grenhas compridas, com uma faixa de flanela azul enrolando os rins. Esse golpe também não falhava. A rês abatida era arrastada para a "praia", ainda esperneando. E principiava a faina das facas carniceiras. As vítimas se sucediam com uma rapidez impressionante. Em seguida a cancha da charqueada começou a vermelhar e o ar se impregnava da exalação do sangue escorrendo e do sangue coalhado, das vísceras fumegantes e da carne quente, ainda com um trêmulo de vida.

Decorridos anos e anos, contemplando aquele antigo teatro de labores cruentos, farejo no ar da tarde radiosa o cheiro dos morticínios.

Naquele entardecer eu havia entrado pela primeira vez na moradia senhorial, uma construção maciça, de linhas coloniais, cujo conforto interior tinha fama na redondeza.

Suas portas só eram franqueadas de tempos em tempos, quando dona Ophelia, impelida pela nostalgia dos dias de infância, vinha rever as árvores que rodeavam a casa, muitas malvadamente cortadas para lenha, as cercas vivas danificadas pelos animais e outras dependências do casarão espaçoso com goteiras, telhas quebradas, manchas enormes de umidade e mofo nas paredes e canos esclerosados deixando correr apenas um fio d'água das torneiras.

Mas o ânimo forte da poetisa não se rendia ante o espetáculo da decadência, antes o envolvia numa visão de apaixonada ternura:

" Vieja casona colonial
en tus reposados ambientes
vuelve mí infancia
y Ia de mis hijos
circulando como un filtro
de inocencia.

En tu luna, en tus piedras,
en tus árboles de áspera corteza
que crecieron conmigo,
en tus palmeras
con un anillo nuevo en cada ano,
misterio circular.

"Saudade" eres de piedra y te enredas,
trepas a mi corazón y floreces
estrella de carne de pétalo y de tiempo..."

E em três meses reabilitava o possível do vetusto casarão e das benfeitorias que o cercavam, embora reconhecesse que outros solaços, outras chuvaradas, outras invernias viriam na sua ausência e, implacavelmente, a cada visita sua encontraria estragos maiores.

Sim, o leitor quer saber? Me tornei amigo de dona Ophelia. E quantas e quantas vezes me deu este conselho: "Váyase, váyase!" - com receio de que a rotina do meu São João Batista do Quaraí me colasse definitivamente as asas sobre o corpo.

Mas, voltando à vaca fria, eu contava que ia devagarinho no carro do Jesús, de retorno para a cidade. E refletia sobre o que acabara de descobrir, meio deslumbrado, entre valente e covarde ante os desafios da fantasia em fuga. Talvez fossem os efeitos do sol declinando em explosões de cores que revelassem detalhes não advertidos noutras horas. E por sobre esse fascínio, eu, predisposto, encarava o grande pátio lajeado ostentando o majestoso bocal do algibe ao centro e as glicínias em flor se despencando e assoalhando as lajes de coloridos roxos e róseos, num esbanjamento de beleza que dava pena, porque era para ninguém. Como um espectador meio sonâmbulo, vejo-me, hoje, situado fora do tempo.

Como fora atender um dos caseiros, a velhinha, eles me franquearam a visitação do solar de dom Emílio, porque, pra eles, ainda era de dom Emílio.

Parecido a guri arteiro, fiz girar a roldana do algibe. O seu guinchar me soou a assombração. E já dentro da casa, na sala, na sala amplíssima da lareira, um feixe de sol iluminava com tamanho requinte o quebra-luz verde-gaio dependurado sobre uma escrivaninha que tive a impressão, fugaz, por certo, de haver sido precedido por um dos demônios familiares do castelo, o encarregado da ornamentação. Uma emoção maior me assaltou, porém, ao deparar com umas achas de lenha, na lareira, queimadas ao meio, sonhando com a volúpia das chamas.

A um jovem imaginativo e ingênuo vagueando num velho casarão deserto, um casarão com histórias, nada se apresenta igual ao real, porque ele sofre da tentação de dramatizar e ir além das aparências contingentes, lá onde se oculta a surpresa poética da meninice.

Já vamos perto da cidade. Devagar. Mais devagar, Jesus! Ele obedece, não porque se deixe tocar pelos meus sentimentos, pelo meu viver tudo meio exageradamente, mas porque, homem prático, pensa em poupar suas alimárias. Enquanto as rodas rodam lentamente, detalho o panorama do Batista. À esquerda, uma planura sem fim, o pampa, mais verde e suave à vista depois da pancada que caíra de tarde. Até a aldeia, de ordinário suja, parecia lavada. Pela frente tínhamos a cidade propriamente dita. À direita, bem mais longe, na outra margem do rio, a cidade uruguaia, Artigas. Entre ambas, o rio Quaraí, encaixado nas barrancas barrentas e desbeiçadas pelas enchentes, espelhando a fulguração do pôr-do-sol nas suas águas que corriam impetuosas.

Não, não falarei das crianças tísicas, dos velhos encurvados, dos ranchos guenzos, nem dos olhos tristes das mocinhas sem namorado, atrás das vidraças da rua principal, ao anoitecer!

 

Cyro Martins, " A dama do Saladeiro".
IN: A dama do Saladeiro (histórias vividas e andadas).
Porto Alegre, Movimento, 2000. 2a. ed.(1a. ed. 1980).