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Cobertorzinho*, de Blau Souza | Imprimir |  E-mail
Escritores Gaúchos - Vitrine

 

O silêncio da manhã de geada era quebrado pelos golpes da pá, abrindo mais um buraco na coxilha de um verdinho enganoso de campo roseteiro. Ao lado, o moirão de guajuvira aguardava seu momento de verticalidade. O negro Juvêncio, já sem camisa, suando, antecipava-se ao seu auxiliar, um gurizote que pousara na estância. Só largou a pá quando este chegou apressado e foi falando, novidadeiro:

- Bom dia. O patrão mandou avisar que a velha Hortênsia morreu.

A face do alambrador não traiu emoções. Ele que tinha sido criado pela tia e madrinha com os parcos recursos de viúva pobre, moradora de rancho de beira-de-estrada. Quando moço fora parteira e mulher para qualquer serviço. Na velhice vivia de benzeduras e lembranças que entretinham solidão, reumatismo e muitos achaques.

Naquela manhã,o filho do patrão estranhara o rancho sem movimento e a chaminé sem fumaça. Empurrando a porta , confirmou suas suspeitas de morte. Restava avisar Juvêncio, único parente da velha de que se tinha notícia.

O negro largou a pá, vestiu a camisa rasgada e convocou o Chico para ajudá-lo. No catre, a visão do corpo franzino e encarquilhado, mais do que algum sentimento, despertou a necessidade de enterrá-lo. Juvêncio coçou a carapinha e mandou pedir carreta e junta de bois para providenciar no sepultamento. Pensou em fazer um caixão, mas logo desistiu.Parecia-lhe sem propósito gastar tábuas e tempo, para logo enterrá-lo. Olhava para a velhinha, pobre até de emoções. No íntimo estranhava a imobilidade sem ordens ou xingamentos. Pitou alguns palheiros e deu algumas cusparadas até a chegada da carreta. Logo carregou o corpo enrijecido para cima da condução. Tapar o cadáver com um cobertor puído pareceu  o único ato a demonstrar afeto.

O cemitério, onde já fora enterrado o marido de Hortênsia, , ficava a légua e meia. E lá se foram os dois homens com o cadáver na carreta... Os bois eram novos e estavam sendo amansados. Cruza zebu, por momentos troteavam, ora um, ora outro, ziguezagueando  aos solavancos, exigindo esforços de Chico para que carga tão leve não saltasse fora da carreta.

Chegaram. O cemitério era um misto de paz e de abandono. Havia, no centro dele, duas sepulturas de material com inscrições confusas e algumas cruzes cravadas no chão sem arruamento regular.  De agradável, impunha-se a sombra de plátanos e cinamomos, cercados por aramado precário. Coroas artificiais de plástico grosseiro, ervas daninhas, pasto sem pastoreio, casa de joão-de-barro sobre a cruz da sepultura maior, rastros de escavações de tatu-peludo completavam o quadro.

Juvêncio lembrou dos tempos em que is lá, com sua madrinha, nos dias de finados. E os dois homens, em silêncio, cavaram o buraco onde lhes pareceu mais correto.Chegara o memoneto de colocar o corpo dentro da cova e o fizeram devagar, com todo cuidado. Chico dispunha-se a jogar a primeira pá de terra, quando Juvêncio, maltrapilho, os olhos baixos, puxou alguma coisa de dentro da cova, enquanto dizia:

- O cobertorzinho fica ...

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*Contos do Sobrado e outras histórias. Porto Alegre. AGE Editora, 1998, p.54.

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Talentoso médico escritor gaúcho,  com intensa atividade científica e de produção  na área de cardiologia, de história e de literatura, destacando-se como ficcionista e ensaísta.

Os Contos de Blau Fabrício de Souza recuperam o universo das estâncias sul-rio-grandenses. Sem saudosismo, depõem sobre o trânsito entre a vida simples de campo  e a vida   atribulada das cidades. Os textos falam de expectativas, desejos, sofrimentos e esperanças de pessoas simples, cujos perfis o autor compõe com a força da palavra escrita.

Blau Souza assinala, em seus contos, a marca da renovação: ao lê-los nenhum leitor poderá permanecer indiferente.

Léa Masina

Leia Léa Masina sobre a paixão dos médicos pela literatura