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FRONTEIRAS CULTURAIS 20 ANOS

Editora: Maria Helena Martins

EDIÇÃO ESPECIAL

Esta edição do site CELPCYRO é dedicada aos 20 anos de nosso projeto FRONTEIRAS CULTURAIS que desde 2000 se desenvolveu vigorosamente e vem deixando rastros, o que muito nos alegra. A todas e todos que têm nos acompanhado nessa quase façanha, nossas saudações e muitos agradecimentos. Especialmente aos que nos presentearam com os belos DEPOIMENTOS que seguem sobre sua participação no projeto: Adriana Dorfmann, Aymara Celia,Carmem Regina Pedrozo, Carmen Maria Serralta, Karla Maria Muller, Luciana Hartmann, Nadja Boelter, Olinda Allessandrini e Carlos Alberto Potoko.


FRONTEIRAS CULTURAIS 20 ANOS
- um projeto-processo do CELPCYRO -

 

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Visão do Pampa. Foto de Virgínia Helena Souto de Abreu Fialho


Reminiscências nada acadêmicas

Não sou e sou fronteiriça. Meus pais nasceram em Quaraí(RS), lindeira com Artigas(UY). Daí que... Sim, na infância e em parte da adolescência as férias eram passadas lá. Para mim, as cidades e o campo se mesclavam num continuum, num vai-e-vem tornando distinções geográficas nebulosas, também as diferenças lingüísticas, pois entre o português e o espanhol se falava um portunhol. E a gente era uma mistura: tios e primos uruguaios e brasileiros, filhos e netos de casais binacionais, cada um usando um linguajar que, ao final das férias, configurava um portunhol avançado ou o que hoje eu identificaria como legítimo fronteiriço.

Essas lembranças se tornaram um borrão de cores, sensações, cheiros, figuras desconhecidas que me olham espantadas ou indiferentes nas fotografias. Quem é quem? Sabe-se lá... Elas e eu - que já esquecemos aquele fronteiriço fluente de fim de férias - temos em comum possíveis fotos partilhadas em diversos álbuns com figuras surdo-mudas. Talvez, aos poucos, para alguns dos fotografados, elas tenham se avivado, recuperando uns nomes, contando fragmentos de histórias que minha memória e imaginação de agora se encarregam de completar com outras vivências, outras leituras, num amálgama. Tal processo foi se expandindo e sedimentando pelo estudo do substrato sócio-cultural do Pampa, pela peculiaridade do Estado do Rio Grande do Sul, lindeiro com Uruguai e Argentina, e a literatura que esse contexto propiciou.

Essa retrospectiva pessoal talvez esteja fora do lugar, mas entendo que faltou esse registro a pavimentar a elaboração do projeto Fronteiras Culturais (Brasil-Uruguai-Argentina) quando elaborado, por conta de uma preocupação acadêmica que rejeitaria, naquele entonces, tal desvio. Mas talvez estejam naquelas vivências as raízes do intuito de realizar esse trabalho. Seria um sentimento nascido então, suscitando a ideia de que fronteiras, mais que indicar limites, significam possibilidades de expansão.

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Definidas as linhas básicas do que pretendia desenvolver, elaborei uma minuta do FRONTEIRAS CULTURAIS (BRASIL-URUGUAI-ARGENTINA), passando a discuti-la com colegas pesquisadores do contexto pampiano, durante o ano de 2000. Ligia Chiappini e Flávio Aguiar,gaúchos na USP; Sandra Pesavento, Léa Masina e outros estudiosos na UFRGS. Meu propósito era de que, mesmo com fundamentação acadêmica, o empreendimento tivesse uma dinâmica de projeto-processo, acontecendo conforme o desenrolar das atividades de pesquisa e das práticas culturais realizadas, para o que eu precisaria contar com intensa e primordial participação das comunidades fronteiriças envolvidas.

1o. ENCONTRO FRONTEIRAS CULTURAIS
(BRASIL-URUGUAI-ARGENTINA)

O ano de 2000 foi de estudo e troca de idéias buscando subsídios que permitissem ir a campo sem maiores hesitações. Com esse espírito foi planejado e realizado o 1o. ENCONTRO FRONTEIRAS CULTURAIS (BRASIL-URUGUAI- ARGENTINA), de 12 a 14 de dezembro, em Porto Alegre, que superou expectativas pela importância dos participantes convidados e trabalhos apresentados. Confira detalhes do evento, desde sua Programação. Edição Especial da Revista Eletrônica CELPCYRO está composta por material produzido para esse evento e sobre ele.

 

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Abertura do 1o. Encontro Fronteiras Culturais (Brasil-Uruguai-Argentina)

 

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Folder com a Programação do evento

 

Durante o evento, foi lançada a edição bilíngue, português-espanhol, do livro de contos de Cyro Martins, Campo fora/Campo afuera, produzida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL) do Rio Grande do Sul, com tradução para o espanhol do escritor Aldyr Garcia Schlee.

alt Minha intenção era realizar pesquisa de campo, usando referenciais motivadores de manifestações a serem desenvolvidas sem maior interferência. Seria um projeto-processo, que aconteceria com alguma orientação, o qual se constituiria a partir de seu próprio fazer... dando aos participantes liberdade.Tinha em mãos, Campo fora/Campo Afuera, com o propósito de ele ser um dos elementos desencadeadores do projeto nas cidades fronteiriças.

A oportunidade de apresentar o projeto na fronteira surgiu quando fui convidada a participar de evento em que formadores de opinião ( representantes dos respectivos governos, jornalistas, escritores, professores, animadores culturais) se reuniram em Livramento(RS) para discutir questões de interesse comum às duas cidades fronteiriças: Santana do Livramento(BR) e Rivera (UY).

Assim, a sorte foi lançada entre o público mais propício a aderir e levar em frente a proposta do projeto, inclusive sendo ela desencadeada com exemplares de Campo fora/Campo afuera para distribuir a escolas, bibliotecas, centros culturais, numa mobilização dinamizada pelo interesse da imprensa em divulgá-la. E pela curiosidade e disponibilidade de santanenses e riverenses para se envolverem no processo. 

Seguem DEPOIMENTOS de pessoas decisivas para o bom e duradouro desenvolvimento do projeto, a quem sou profundamente grata. Também, uma amostra dos EVENTOS REALIZADOS durante esses 20 anos.


Maria Helena Martins
Coordenadora do projeto Fronteiras Culturais (Brasil- Uruguai-Argentina)
Diretora de Cultura, Humanidades e Literatura do CELPCYRO


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DEPOIMENTOS


DO FRONTEIRAS CULTURAIS AO UNBRAL FRONTEIRAS
E ÀS FRONTEIRAS DIGITAIS

 

Fronteiras culturais, fronteiras internacionais:
encontros entre diferentes saberes

 

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Karla M Muller1*

Em dezembro do ano 2000 participei do 1o Encontro Fronteiras Culturais (BRASIL – URUGUAI – ARGENTINA), realizado em Porto Alegre, na Casa de Cultura Mário Quintana, coordenado pela Profa. Maria Helena Martins. Na época, estava concluindo o trabalho de campo que resultou na minha tese de doutorado (Müller, 2003)[3]. Foi um período no qual a temática fronteira passava a fazer parte do meu cotidiano e aguçava meu interesse pelas fronteiras internacionais. Ao participar do Fronteiras Culturais, percebi como essas duas concepções de fronteiras se interpenetravam. O foco de meus estudos desde então ficou centrado nas questões envolvendo Mídia e Fronteiras, hoje tratadas no plural.

Como parto do olhar das Ciências da Comunicação, a centralidade de minhas pesquisas está colocada na análise dos meios de comunicação. Mas desde a graduação, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e graças à professora Martha D’Azevedo, considerar nossa ligação com os países vizinhos tem importância para nós que vivemos no estado gaúcho, onde o limite territorial brasileiro faz divisa com o Uruguai e a Argentina.

Após algumas reflexões e produções, desde 2007, ministrando a disciplina Comunicação e Práticas Socioculturais junto ao Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) na UFRGS, inclui na pauta das discussões, de forma efetiva, as fronteiras culturais. Graças a este exercício, foi possível orientar mestrandos e doutorandos que tinham o mesmo interesse em estudar fenômenos comunicacionais envolvendo as práticas culturais em contextos urbanos, muitos deles ligados diretamente às fronteiras internacionais.

Falar de comunicação entre sujeitos e não levar em conta sua(s) cultura(s) e identidade(s) é tratar de modo simplista a complexidade e tudo que implica as relações envolvidas. Por isso, um dos trabalhos que levo para meus estudantes é o resultado do Projeto Fronteiras Culturais, desenvolvido por Maria Helena Martins na cidade de Santana do Livramento. A partir da fala dos moradores da região fica evidente o cuidado que têm com o outro, com o vizinho, seu irmão/hermano de fato. Mesmo que inconscientemente, percebem as similitudes e as diferenças que lhes constituem e a riqueza que isto significa para ambos.

Quanto mais nos aprofundávamos do assunto, mais o espaço das fronteiras internacionais foi se mostrando propício para verificar como se dá o convívio entre agentes pertencentes a diferentes nações, como se estabelecem as interlocuções dos fronteiriços, falando idiomas distintos, vivendo sob leis e regras nacionais específicas, mas trocando constantemente seus saberes. Respeitando modos de pensar e agir de quem mora ao lado, realizando movimentos de alteridade, os habitantes de Livramento-Rivera, Uruguaiana-Paso de Los Libres e outras tantas cidades localizadas em fronteiras internacionais conurbadas, ensinam que as fronteiras podem abrigar relações fraternas. Foi nesses pontos de contato entre países que percebi a potência no entrelaçamento de culturas, da criação de uma nova forma de relacionamento e a existência de uma cultura fronteiriça, muito peculiar àquelas regiões.

Nesses anos de caminhada, acompanhei de perto teses e dissertações que analisaram a mídia fronteiriça como as rádios locais e as manifestações culturais apresentadas nos dizeres e fazeres dos sujeitos do lugar, como o trabalho da Profa. Vera Raddatz (2009)[4]. Estudos sobre jornais (impressos e online) de cidades como Uruguaiana, Santana do Livramento e São Borja (e suas vizinhas dos países “ao lado”), entre outras, foram realizados na busca por compreender a participação da mídia na construção da cultura e da identidade fronteiriça. Além desses estudos voltados para as regiões limítrofes brasileiras, foi possível orientar e desenvolver pesquisas que trataram da diversidade cultural em outras localidades, mas que foram permeadas pelas concepções ligadas às fronteiras culturais presentes no convívio entre diferentes grupos sociais. Conceitos e entendimentos possíveis de serem replicados, pois fazem pensar nas mesclas produzidas pelo homem, muitas vezes demonstrando o cuidado para que não haja apagamento das marcas peculiares de suas culturas.

Assim como me aproximei do Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins (CELPCYRO), de Maria Helena e do projeto Fronteiras Culturais, participando da organização de eventos e contribuindo com textos para obras sobre este assunto, também fui conhecendo professores, pesquisadores e simpatizantes das questões fronteiriças oriundos de diferentes áreas como a Linguística, Literatura, História, Geografia entre outras e também tantas outras pessoas pertencentes aos saberes do cotidiano. Em meados de 2011 conheci pessoalmente Adriana Dorfman que teve a coragem de criar em 2013 o projeto Portal de Acesso Aberto das Universidade Brasileiras sobre Limites e Fronteiras – Unbral Fronteiras[5] – do qual sou vice-coordenadora há cerca de cinco anos.

A criação de um portal, mais do que um repositório, abriu a possibilidade de disponibilizar o conhecimento produzido no Brasil sobre suas fronteiras. A iniciativa, com a aplicação das lentes de quem tem como lugar de fala a Geografia, foi de uma grandeza que não conseguimos dimensionar.

Coordenar uma equipe de estudantes de graduação, de pós-graduação, pesquisadores e professores vinculados a diversas áreas do conhecimento, possibilitou criar mecanismos e caminhos cujos resultados seguem sendo buscados no intuito de atualizar os dados e as informações sobre os estudos fronteiriços.

O trabalho teve alcance e levou suas descobertas a fóruns de discussões nacionais e internacionais cujos reflexos seguem sendo sentidos, provocando novos estudos sobre o tema, ligados à Geografia, Comunicação, Saúde, Informação e outras áreas do conhecimento.

Hoje, além de prosseguir na orientação de estudos comunicacionais que procuram compreender os fenômenos que ocorrem no ambiente fronteiriço, e que retratam o urbano, o rural, a política, a economia, a presença dos refugiados e o papel da mulher no contexto das fronteiras internacionais, passei a me dedicar a compilar as teses e dissertações produzidas nos últimos 15 anos cuja temática permeia o tema Mídia e Fronteiras.

Graças aos primeiros passos e horizontes que se abriram após os Encontros Fronteiras Culturais e com o trajeto que desde o final dos anos 90 venho trilhando, muitas conquistas foram alcançadas e muito trabalho se mostra imprescindível para entender o que se passa nos espaços das fronteiras internacionais e o amálgama produzido pelas ações de agentes que colocam frente a frente diferentes culturas, derrubando barreiras que podem ser estabelecidas pelo preconceito com relação aos hábitos e costumes do outro, que muitas vezes não permitem ver a riqueza que podem representar as Fronteiras Culturais.

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*[1]* Karla Muller. Doutora em Ciências da Comunicação. Professora Titular do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.Vice-coordenadora do Portal de Acesso Aberto das Universidade Brasileiras sobre Limites e Fronteiras – Unbral Fronteiras. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Espaço, Fronteira, Informação e Tecnologia (GREFIT).
E-mail:
kmmuller@ufrgs.br

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Das fronteiras internacionais ao Fronteiras Culturais e, hoje, ao Unbral Fronteiras

 

 

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Adriana Dorfmann*

Em dezembro de 2000 também participei do 1º Encontro Fronteiras Culturais (BRASIL – URUGUAI – ARGENTINA), em Porto Alegre, na Casa de Cultura Mário Quintana, coordenado pela Profa. Maria Helena Martins. Naquele momento eu voltava a Porto Alegre, depois de mais de uma década morando no Rio de Janeiro, onde fui fazer o mestrado em Geografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Voltava por circunstâncias familiares, mas pensava muito no projeto para o doutorado, pois recém tinha passado na seleção no mesmo programa. Meu projeto era estudar o contrabando e através dele a cultura da fronteira - fronteiras culturais, portanto, dando múltiplas dimensões às fronteiras internacionais.

Lembro bem de alguns momentos do evento. Recordo um questionamento que até hoje trago, sem respondê-lo: “há identidade sem projeto?”, mas não consigo localizar o palestrante... Lembro de encontrar o prof. Tito Carlos Machado e Silva, certamente um dos maiores fronteirólogos que temos. Também estava lá Lígia Chiappini, que muito citei na tese que defendi em 2009[6]. Teria eu conversado com a profa. Karla Müller?

A abordagem amplamente transdisciplinar, aliando arte e ciência, era irresistível. Uma proposta que cativa pela sua seriedade ousada, de abraçar as representações sem hierarquizar gêneros discursivos. Nela o “Fronteiras Culturais” merece lugar de precursor.

Entre as incontáveis reorientações teóricas que vejo acontecendo no campo dos Estudos Fronteiriços hoje, certamente a proeminência das fronteiras culturais/ cultural borders/ frontièresculturelles/ Kulturgrenzen/ fronterasculturales... resiste e se aprofunda, trazendo consigo a sensibilidade aos processos em curso nos lugares fronteiriços. Diz Fabian Severo que “todos nos semo da frontera como eses pásaro avuando de la pra qui cantando um idioma que todos intende” (SEVERO, 2011)[7], e me permite pensar que a fronteira cultural nos incute a liberdade de expressão e o amor à diversidade, ao mesmo tempo delimitando e nos incitando ao desvelamento, às passagens ao anti-atlas das fronteiras e das fronteiridades[8].

Esses tantos chamados e alianças merecem nosso engajamento. Longa vida à arte que multiplica os significados da ciência localizada e significada pela experiência fronteiriça.

Novos desafios fronteiriços

Certamente as marcas deixadas pelo Fronteiras Culturais seguem vivas entre nós. Dar prosseguimento a estudos, propor novos eventos e intercâmbio entre saberes e sujeitos pertencentes a diferentes grupos e nações,enriquece nosso olhar sobre o que representa a beleza e a grandeza da cultura e da identidade fronteiriças em espaços como os que demarcam o território brasileiro com os países vizinhos. Estimular o entrelaçamento entre conceitos de diferentes campos do conhecimento, amplia nosso olhar e abre novos caminhos e possibilidades para a ciência e o convívio social.

Em um período em que o efetivo trânsito de pessoas é prejudicado devido à pandemia da Covid-19, que estabeleceu um distanciamento social forçado, reforça nossa dependência de contatos e trocas presenciais. Passamos a valorizar ainda mais a liberdade em nos locomover e estabelecer relações, reconhecendo a importância que o outro tem para que eu possa me constituir e me reconhecer como sujeito pertencente a um grupo, uma comunidade, uma nação.

Estamos sendo provocados a criar instrumentos e mecanismos para transpor as dificuldades que as barreiras tecnológicas nos impõem. Estamos nos deparando com novas fronteiras culturais! Encontrar alternativas para (re)existir e nos (re)inventar, na busca constante por conexões, passa a ser o desafio do momento. Entender que as fronteiras culturais, mais que tudo, auxiliam a perceber as diferenças e a apreciar o que de bom as relações estabelecidas entre sujeitos distintos propiciam, faz com que possamos crescer como seres humanos, num eterno processo de aprendizagem. Mas neste turbilhão de acontecimentos, fica a preocupação com a inclusão daqueles sujeitos que estão marginalizados por não conseguirem forças e conhecimento para ultrapassar estas barreiras que hoje estão muito presentes no ambiente digital.

Cabe também a nós, ligados ao tema das fronteiras, ficar atentos e contribuir para que este distanciamento seja o menor possível, não represente isolamento, e que a aproximação, mesmo que de modo virtual, siga beneficiando as trocas entre culturas e conhecimentos de naturezas distintas.

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*Adriana Dorfman .Doutora em Geografia. Professora Associada do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Coordenadora do Portal de Acesso Aberto das Universidade Brasileiras sobre Limites e Fronteiras – Unbral Fronteiras. Líder do Grupo de Pesquisa Espaço, Fronteira, Informação e Tecnologia (GREFIT)
E-mail: adriana.dorfman@ufrgs.br

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[3]MÜLLER, Karla M. Mídia e fronteira: jornais locais em Uruguaiana-Libres e Livramento-Rivera. Tese. São Leopoldo: Unisinos, 2003. Disponível emwww.midiaefronteira.com.br

[4] Minha primeira doutoranda e hoje uma grande amiga que produziu a tese sobre rádios fronteiriças - RADDATZ, Vera L. S. Rádio de Fronteira: da cultura local ao espaço global. Tese. Porto Alegre: Ufrgs, 2009.

[5] Teses, dissertações, artigos e estudos produzidos no Brasil sobre fronteiras, bem como os Anuários do Unbral, foram compilados e estão disponíveis no Unbral Fronteiras, podendo ser acessados em http://unbral.nuvem.ufrgs.br/site/

[6] DORFMAN, Adriana. Contrabandistas na fronteira gaúcha: escalas geográficas e representações textuais. Tese. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2009. Disponível em http://hdl.handle.net/10183/32550 .

[7] SEVERO, Fabián. Noites nu norte. Disponível em: http://files.fabiansevero.webnode.com.uy/200000033-

[8] Vale a pena visitar o site do projeto e se engajar nele: https://www.antiatlas.net/

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PROJETO FRONTEIRAS CULTURAIS EM
LIVRAMENTO E RIVERA

 

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MERECE - EXISTE MANEIRA MAIS ENCANTADORA DE RESPONDER?

 

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Aymara Celia*

Em 2000 o CELPCYRO iniciou o projeto Fronteiras Culturais (Brasil-Uruguai - Argentina) em Livramento - Rivera, a fronteira que aceitou desenvolver o trabalho de campo do projeto. Acompanhei Maria Helena Martins a Livramento, que eu já conhecia ( quem nunca foi ao Free Shop de Rivera ?), mas que passei a ver com outro olhar. É uma fronteira com uma riqueza humana fantástica. Poetas, escritores, artistas plásticos, estudiosos de diversas áreas. Os habitantes todos são muito especiais. 

Nas ruas, encontram-se mulheres com vestes  muçulmanas, homens com trajes de lida no campo (bota, bombacha e às vezes lenço no pescoço).

Andando por Livramento, parece que estamos em outro país e, se atravessamos a rua, bem podemos estar em Rivera, no Uruguai.

É delicioso ver como se comunicam. São mais do que brasileiros e uruguaios. São fronteiriços. Ser fronteiriço é uma identidade que os acompanha até quando viajam para outros lugares. Por exemplo: uma arquiteta nos contou que veio a Porto Alegre a um encontro de arquitetura. Arquitetos de outros países do Mercosul também estavam presentes. No intervalo do cafezinho ela procurou os uruguaios, com quem se identificava mais.

Estávamos voltando depois de sete dias em Livramento - Rivera, no encerramento da primeira etapa do projeto, quando falei para a Maria Helena: tenho a sensação de que estive no estrangeiro.

Outra coisa maravilhosa lá é o modo como respondem quando agradeces uma informação ou outra coisa qualquer: MERECE. Existe maneira mais encantadora de responder?

Por último, encontrei lá uma coisa deliciosa: morcilha doce!!! Amo. Aprendi a gostar com meu pai. Mas em Porto Alegre é quase impossível encontrar. Uma lástima.

Livramento-Rivera é uma zona fronteiriça muito especial. É uma fronteira cultural.

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* Aymara Celia. Graduada em Ciências Sociais(UFRGS), especialização em Antropologia de Sociedades Complexas(UFRGS). Foi docente de Antropologia na UFRGS, UNISINOS, FAPA e PUCRS. De 1997 a 2011 Assessora a Direção do Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins - CELPCYRO, com destaque no planejamento e coordenação de projetos, participação em eventos e atividades regulares, especialmente no planejamento e realizações do projeto Fronteiras Culturais.

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DESCOBRINDO A FRONTEIRA

 

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Maria Helena Martins * 

Se pouco valesse nosso trabalho com o projeto em Livramento e Rivera, só o fato de termos propiciado revelações a essas crianças e recebido outras tantas delas, nos deixaria felizes.

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Crianças da Escola Maternal Baby & Companhia no Parque Internacional

Andrea Ilha, arquiteta, mãe de uma das crianças da Maternal (Livramento) mobiliza professoras e a criançada com cerca de 5 anos para participarem do projeto. Atentas, as crianças ouvem a professora contar histórias de Campo fora, vão materializando cavalinhos de pau, cinco-marias, brincando com tropilhas de osso. Encantam-se ao visitar - pela primeira vez - uma fronteira, na cidade onde vivem, mas de cuja existência nem sabiam, embora a atravessem volta e meia. Também são levadas a reconhecer esse "outro idioma", que conhecem sem perceber que não é o português. E recriam em maquete o Parque Internacional, fazem desenhos e brinquedos - partindo do que a realidade mostra e do que a memória de uma bisavó resgata e a imaginação delas alcança. Um passo importante para a construção de seu futuro e nosso encantamento.

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Felizes, na exposição de Revelações Culturais da Fronteira, as crianças identificam na maquete
do Parque Internacional, que construíram, o que cada uma fez

Como semeadoras, Aymara e eu jogamos ideias que encontraram corações e mentes prontos a fertilizá-las. E um guri da campanha saltou de Campo fora/Campo Afuera, se pôs a brincar com a imaginação de leitores e ouvintes, adultos e crianças, incitando-os a criar. Um cheiro de pasto, uma paisagem espraiada, um tordilho a galope, uma vontade à solta. E uma fronteira seca, entre cá e lá, tudo parecendo o mesmo desde nascença - até a descoberta "do outro lado", um mundo novo levando a insólitas revelações.

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* Maria Helena Martins. Fundadora do CELPCYRO e sua atual Diretora de Cultura, Humanidades e Literatura , Coordenadora do Projeto Fronteiras Culturais (Brasil-Uruguai- Argentina). Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada. Lecionou na UFRGS e na FFLCH da USP.

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O PROJETO EM ESCOLAS PÚBLICAS DE LIVRAMENTO E RIVERA

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Carmem Regina Vijande Pedrozo*

Santana do Livramento/BR e Rivera/ROU apresentam uma realidade difícil de ser compreendida por quem não pertence a essa região. Sendo uma fronteira sem nenhum acidente geográfico para sinalizar o espaço, sem nada além de marcos colocados a certa distância um do outro, a região tem uma situação própria e oferece uma riqueza cultural sui generis.

Temos um vocabulário próprio, uma vida familiar bastante particular, uma educação escolar que não encontra paralelo (brasileiros e uruguaios morando em um país e estudando em outro), apresentações culturais de um país ocorrendo no outro, etc. Isso para citar apenas as situações mais visíveis!

A ligação entre cultura e educação é impossível de ser negada! Embora não houvesse nenhum reconhecimento oficial dessa verdade, a possibilidade de fazer parte de um projeto que incentivava o desenvolvimento de um trabalho escolar alicerçado nessa ”cooperação” entusiasmou-me!

Naquela ocasião, eu trabalhava na Supervisão da Secretaria Municipal da Educação e, ao receber o convite de fazer parte do Projeto Fronteiras Culturais, o então Secretário, Professor Guilherme Elguy, indicou-me para assumir a coordenação do projeto na Secretaria de Educação de Livramento.

Maria Helena Martins solicitou-me compartilhar o que o Projeto Fronteiras Culturais representou para mim. Representou muito: foram muitas as aprendizagens e enriquecimento, tanto das escolas como pessoais!

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Apresentação dos alunos da Escola Rural Aldrovando Santana,
revivendo a formação da cidade de Livramento

Muitos contatos com escolas, tanto brasileiras como uruguaias foram feitos. As escolas tiveram liberdade para participar ou não do Projeto e muitas atividades foram realizadas. Foram muitas as vivências experimentadas: leitura de livro de Cyro Martins (Campo fora/Campo Afuera), estudo de vocabulário, redações, declamação de poesias, visita à escola uruguaia, recepção de escola uruguaia, com apresentação do que foi aprendido no desenrolar do projeto, compartilhamento de problemas, sugestão de soluções... E o principal: envolvimento pessoal...

 

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Embora muito tempo tenha passado, guardo no coração a certeza de que o Projeto Fronteiras Culturais ainda é algo passível e desejável para a educação da Fronteira!

Livramento, novembro de 2020.

Saiba mais sobre esse 1o. Encontro de escola brasileira e escola uruguaia. 

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* Carmem Regina Vijande Pedrozo. Formada professora no Curso Normal. Professora no Magistério Estadual e Municipal. Curso de Letras, habilitação em Língua Portuguesa e Língua Inglesa. Pós-graduação em Supervisão Pós-graduação em Língua Portuguesa Pós-graduação em Alfabetização.

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MINHA EXPERIÊNCIA NO FRONTEIRAS CULTURAIS

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Carlos Alberto Potoko*

O Projeto Fronteiras Culturais em Livramento inseriu o Projeto Cyro Martins vai às Escolas, destinado a despertar em alunos do ensino básico, o gosto pela leitura e a descoberta de novos horizontes através da literatura. Foi desenvolvido nas escolas como preparação do cidadão do futuro. A carência do aprendizado refletia-se nos resultados que se observavam no dia a dia, mais entre os alunos carentes, crianças em situação sócio-econômica precária. Sabendo que a união faz a força, esse projeto propôs a parceria entre diversos atores sociais, dentro de suas respectivas áreas de atuação. A Academia Santanense de Letras, engajada em projetos dessa natureza e por estar envolvida nas atividades comemorativas alusivas aos 100 anos de nascimento de Cyro Martins, entendeu que em atividades assim muito se podia fazer por um futuro melhor para nossas crianças. Então entrei de coração e alma para trocar conhecimento sem porteiras nessa fronteira.  

 

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O PROJETO FRONTEIRAS CULTURAIS

Em 2001 esse projeto começou a ser desenvolvido em Livramento e Rivera, com agentes culturais das duas comunidades, como o Club de Lectoras, a Academia Santanense de Letras, escolas públicas e pesquisadores universitários das duas cidades. O sucesso do projeto semeou uma maneira de vermos o gaúcho de uma forma mais austera em suas raízes culturais de amor à terra e aos seus animais, além do Estado do RGS, bem como do Uruguai e da Argentina, no seu modus vivendi da campanha, em especial o pampa fronteiriço. A região é um exemplo de espaço do tempo privilegiado que, embora rico para a agropecuária ou pouco próspero socialmente ou economicamente é culturalmente inspirador da onipresença da figura desse homem xucro, indomável até, mas um ser amoroso com o ambiente. Por essa remissão teimosa, hoje emana nesta região uma aura de prosperidade com a diversificação agrícola, olivais e vinhedos a arar sulcos de turismo.

Para refletirmos sobre esse homem do campo superior ao tempo, leia-se Cyro Martins, meu patrono na Academia Santanense de Letras, que fala desse gaúcho mutante que, como tal, quase perde a sua alma ao ser levado à força para uma mísera vida na periferia das cidades e que, apesar de tudo, não morre, ressuscita. Essa literatura que conheci através do Projeto Fronteiras Culturais é hoje o meu alumbramento perpetuado por ele. Da imagem do mito feita pelos escritores que vieram antes dele, do gaúcho que dividia seu tempo entre as lides campeiras e as guerras, Cyro pintou a imagem de um outro gaúcho, do gaúcho a pé, do homem diante da realidade social em que vive, capaz de mudar a situação, de reverter o destino através da ação e do amor por sua terra.

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A Escola Nossa Senhora do Livramento reforça atividades em literatura

O Projeto Fronteiras Culturais realizou várias oficinas de leitura em escolas, como Nossa Senhora do Livramento, com a diretora Carmem Maria Gonzales, a professora Ione Valéria e os alunos do 3° ano de II Grau, sobre a obra bilíngue em português e espanhol, Campo Fora, de Cyro Martins.

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Num tempo em que aumenta a necessidade de valorizar o patrimônio cultural do Cone Sul, para seu reconhecimento entre nós, na América em geral e no resto do mundo, esse projeto trouxe pesquisadores de várias nacionalidades para expor peculiaridades da região e sua diversidade, vistas em seus aspectos literários, históricos, artísticos, linguísticos, antropológicos, educacionais, sociais, agroindustriais, midiáticos.

No relato do trabalho de leitura dos alunos de 6ª, 7ª e 8ª séries da Escola Municipal Célia Irulegui, sobre os contos do livro Campo Fora de Cyro Martins, a diretora Cláudia Rosana Santana, a vice-diretora Marta Torres e a professora de português Ana Maria revelam ter feito uma oficina de estudos sobre todos os contos do livro e escolheram três contos juntamente com os alunos para serem apresentados em dramatização na escola: Guri, Alma Gaudéria e Tempo de Seca.

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A apresentação foi na manhã do dia 8 de novembro de 2001, às 9 horas, com a minha participação como voluntário do Fronteiras Culturais, onde fiz uma charla com as crianças e as professoras. A profa. Tânia Rodrigues representou a Secretaria Municipal de Educação com apoio oficial e locomoção. A educadora uruguaia Graciela da Cruz, também participou com um trabalho seu, “Gurizinho sem fronteiras”, inspirada no conto Guri.

As peças foram apresentadas com elementos cenográficos da mais pura e bela imaginação das crianças, que mesmo sem palco da apresentação, cavalgavam com destreza cabos de vassouras, como se fossem pingos xucros. Faziam a sonorização dos ventos batendo nos vidros da sala de aula, as vestes não eram finas peças da rouparia, mas sim do seu dia a dia, já que eles vivem entre o rural e o urbano. Enfim, o imaginário povoava nossas mentes e nossa almas. Já os outros elementos estranhos ao recinto, não importavam mais, importava sim, a encarnação dos personagens de Cyro que viviam de mãos dadas em espírito com aquelas lindas crianças. Lindas porque ainda reinava nelas a inocência dos meninos campeiros interagindo com suas fantasias e materializando-se com suas cenografias.

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Descobrimos juntos que os personagens de Cyro ainda vivem livres no subconsciente das nossas crianças, basta nós, adultos, fazermos nossa parte, que certamente nossas crianças nos mostrarão que a nossa visão é pequena em relação ao que a visão delas alcança. Fizeram o dever de casa por nós, tomara que outras pessoas, como eu, sejam privilegiadas com tamanha aula de generosidade, de solidariedade e de felicidade.

Biblioteca Municipal de Santana do Livramento

O projeto durou 2 anos, no qual se faziam oficinas de leituras da obra do Cyro, na biblioteca municipal, com um questionário respondido com seus conhecimentos pessoais e o que entenderam da s leituras realizadas.

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* Carlos Alberto Potoko. Poeta fronteiriço, colunista do Jornal Correio do Pampa (Livramento), ocupa a Cadeira 35 da Academia Santanense de Letras, cujo patrono é Cyro Martins,  pesquisador e autor do livro digital 1823sobre a história político-militar da fronteira pampeana. 

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FRONTEIRAS CULTURAIS - CYRO MARTINS -
CLUB DE LECTORAS - LAS VIRGINIANAS

 

 

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Carmen Maria Serralta*

Neste ano de 2020, o Projeto Fronteiras Culturais celebra seus vinte anos de fecunda existência. Em 2001, quando da realização do projeto em Santana do Livramento e Rivera, o Club de LectorasLas Virginianas aderiu ao evento pelo viés da literatura, mediante a leitura do primeiro livro de contos do escritor Cyro Martins, Campo Fora, em primorosa edição bilíngue, português e espanhol, na excelente tradução de Aldyr Garcia Schlee.

Hoje, com o olhar distante permitido pelo transcurso do tempo, percebemos que nossa experiência com o Projeto Fronteiras Culturais, desencadeada pela leitura privilegiada do então jovem autor Cyro Martins, foi mais do que um simples encontro feliz: foi a conquista de um bem imaterial, o qual se define como um bem capaz de redistribuir bens. Alcançou-se um patrimônio cultural! Suas bondades não se esgotam no imediato, resistem à passagem do tempo. Nesse sentido, as manifestações artísticas, precisamente o que estamos abordando, são sempre atuais e únicas. As narrativas do jovem ficcionista nos tocaram fundo, porque sentíamos, em sendo fronteiriças, que ele falava de nós e para nós. E logo nos vêm à mente as palavras do poeta francês André Breton quando diz “O amor é quando alguém nos dá notícias nossas” (em sua língua de origem: “L’amour c’est quand quelq’un vous donne de vos nouvelles”).

Mas, afinal... quem são as integrantes do Club de Lectoras? Trata-se de um grupo nascido na década 80 do já longínquo século passado, formado por mulheres unidas pelo gosto pela literatura. Naturalmente muitas já se foram, mas não estão em silêncio, pois são constantes fontes de inspiradoras lembranças. Grupo diverso, considerando-o pelas datas de nascimento, ocupações, atividades, crenças e visões de mundo. Mulheres que se reúnem, com frequência mensal, para análise de uma obra sugerida e escolhida por consenso. Mulheres que consideram a literatura como um modo de estender a percepção humana do mundo, bem como uma forma de conhecimento que chega pela emoção, gozo estético e reflexão. Em suma, reúnem-se pelo prazer da leitura.

 

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Participantes do Club de Lectoras - Las Virginianas, apresentando seu livro no
Salão Nobre do Club do Comércio( Livramento), durante o evento
Revelações Culturais da Fronteira

Nesse contexto, como leitoras, surgiu o nosso imediato envolvimento com Campo Fora, atraídas, numa espécie de amor à primeira vista, pelo talento inato do contador de histórias que é Cyro Martins. E, mais uma vez, reconhecemos com Borges, que a leitura é uma forma de felicidade. Como consequência, fomos seduzidas pelas pequenas jóias dos catorze contos.

Ademais, o projeto Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera alargou o conhecimento que tínhamos da nossa fronteira Brasil-Uruguai,região polissêmica por excelência, mais de ampliação do que de limitação de espaços, definida por uma prática e não por uma lei. Não menos importante, provocou novos olhares sobre o nosso hibridismo, próprio do tempo e do lugar, resultante tanto do contágio das duas línguas como da interpenetração de duas culturas: condição favorável à criação de um “eu duplo”, encorajando o mundo plural e multicultural.

Movidas pelo entusiasmo da proposta literária de Maria Helena Martins, elaboramos ficção, pela primeira vez, como grupo.

Foram escolhidos os contos Guri, Sem Rumo e Caty, resultando em três textos: dois coletivos e um individual, dois deles em castelhano e um em português; duas canções com letra em português e gravação, em compact disk, e uma aquarela com ilustração dos três contos. Fomos além de escrever, realizamos pesquisas e entrevistas com antigos moradores da região.

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Com imagens da capa de Marina Esteves Macedo para o livro Narraciones y Canciones, o CD traz belas canções que podem ser ouvidas aqui: Essência da Vida e Pastor de Fantasias - Letra, Música e Interpretação de Graciela da Cruz - que ficaram ecoando na memória

Todo o universo da fronteira está lá, nessa primeira obra do escritor. Surge, como por mágica, recriando o tempo da infância e juventude do Guri Nilo, vivido nos vastos campos da campanha, onde sobressai a figura sensível e comovente do menino - o autor quando criança, que é ternamente percebido, magistralmente exposto, proustianamente revivido e reencontrado.

Cyro, nessa primeira obra de juventude, aborda com simplicidade e seriedade os grandes temas de vida e morte e já prenuncia o profundo humanista que veio a ser. Cyro desvia, com brio, o meramente regional e alcança a dimensão do universal. Essa circunstância, do universal e do atemporal, é que faz a distinção entre os grandes escritores e os outros, e dá a Cyro Martins presença definitiva no âmbito da literatura, garantindo-lhe o interesse dos leitores de hoje e dos que hão de vir. Em termos humanos, nada se parece tanto à ideia de “vida eterna” do que as obras de arte que resistem ao tempo. Sem hesitação, colocamos o livro Campo Fora no patamar das coisas que perduram. Creio que, de um autor, não se pode pedir muito mais.

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*Carmen Maria Albornoz Serralta Hurtado. Natural de Sant'Ana do Livramento , onde reside. Entre as atividades pedagógicas e intelectuais, fez parte do grupo da Aliança Francesa premiado - MENÇÂO ESPECIAL - no Concurso Internacional Paroles de Lecteurs (2001) organizado pela TV5 e CAVILAN da França. Integra o grupo Club de Lectoras - Las Virginianas, que participou do Projeto FRONTEIRAS CULTURAIS (2002), do CELPCYRO. Desde 2006 é membro efetivo da Academia Santanense de Letras. Em 2011, lança A fronteira onde Borges encontra o Brasil (Porto Alegre, Movimento), seu primeiro livro, que já surge como obra marcante.( Leia trechos do livro).

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É SÓ SEGUIR A ESTRADA

 

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Luciana Hartmann*

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Estou na estrada, indo em direção à fronteira. Reduzo a velocidade, não porque haja neblina, mas porque enxergo a placa: Livramento a 35 km, Montevideo a 535 e Buenos Aires a 770. Paro o caro para fotografá-la. Faço doutorado em antropologia e estou prestes a começar minha pesquisa de campo, ouvindo contadores de causos e cuentos dessa tríplice fronteira. A placa alimenta meu imaginário sobre o que está por vir. Nela cabem nossos três países, é só seguir a estrada.

Isso aconteceu há 20 anos. Assim como o Projeto Fronteiras Culturais.

A proposta de Maria Helena Martins para escrever sobre minha participação no Projeto reverberou como uma espécie de convite a “escavar” meus acervos de pesquisa – que eu não abria há muitos anos. Deparei com caixas empoeiradas contendo cadernetinhas repletas de nomes, telefones e rabiscos, cadernos de campo ainda escritos a mão, pastas com contatos fotográficos minuciosamente organizados, dezenas de fitas cassete, centenas de páginas de causos transcritos, recortes de jornal, mapas e memórias, muitas memórias. Em meio a tudo isso, encontrei a pasta intitulada “Fronteiras Culturais”. Felizmente sou bastante apegada a minha história. Ao longo desses 20 anos perdi o número de vezes que mudei de casa, de cidade, de país. Casei, tive duas filhas, descasei, implantei uma prótese no quadril, não deu certo, tive que implantar outra. E a pasta “Fronteiras Culturais” continuou bem guardada. Dentro dela, diversas “relíquias”: folder do projeto, programação dos eventos realizados em 2000 e 2001, anotações minuciosas.

 

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A visualidade foi evocando lembranças dos encontros em Livramento e Rivera, da beleza que foram as Charlas Fronteiriças, da nossa mesa sobre pesquisas na fronteira, da precursora proposta de estabelecer, há vinte anos atrás, uma “Fronteira em Rede”, via internet, e da Mostra de desenhos e brinquedos de crianças a partir do livro Campo Fora, de Cyro Martins, esse escritor que me havia ensinado, muitos anos antes, na leitura de sua trilogia, o que era ser um “gaúcho a pé”. Eu, que não sou da fronteira, inicialmente tive estranhamentos com o linguajar fronteiriço, mas quando me deparei com o “galpãozinho dos ‘a pé’ ”, numa das estâncias que me hospedou, e percebi a relação de inferioridade hierárquica que se estabelecia entre esses e os peões que tinham um cavalo, não tive como não lembrar da jornada de João Guedes, em Porteira Fechada. Em muitas ocasiões, ao longo de minha pesquisa, foram os “a pé” que me receberam generosamente com seu mate e seu silêncio, que só era quebrado por algum causo de assombração ou de alguma pelea ocorrida na saída de um baile.

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Sr. Luiz Carlos Flores da Cunha Mattos, numa das Charlas Fronteriças, com Luciana, o Gaúcho Barreto à direita e à esquerda, Maria Helena Martins e Noemi Kurtz

Dentre todos os causos que ouvi durante os muitos anos de pesquisa na região, escolhi para compartilhar neste momento em que comemoramos 20 anos do Projeto Fronteiras Culturais um que foi contado pelo Sr. Luiz Carlos Flores da Cunha Mattos durante as Charlas Fronteiriças, ocorridas no evento de 2001. Essa história, até hoje, me toca profundamente.

Ouçamos Seu Luiz Carlos:

"O meu avô era Francisco e ela (a avó) era Francisca. Ela foi, durante os dois governos do pai, em Minas Gerais, a secretária particular e a responsável pelo gabinete do pai (o senador Antônio Gonçalves Chaves). Imaginem vocês, em 1885, falando francês, inglês e italiano. E uma poetisa que eu fico numa tristeza dela não ter nos deixado pegar nos cadernos onde ela escrevia algumas poesias... Uma pessoa de uma fortaleza de caráter, uma coisa! Só prá vocês terem uma ideia, o que é transportar uma pessoa, com a cultura que tinha, com o ambiente refinado em que vivia, prá vir prá estância São Miguel, aqui no Cati, fazendo vela de sebo, indo e voltando prá estância de carroça, prá acompanhar, naquele tempo, as loucuras do meu avô, funcionário e político, aquela coisa... E ela se manteve até o fim da vida íntegra, como se estivesse com o pai, e acompanhando o meu avô de todas as maneiras, nos piores momentos, sempre com uma serenidade, com uma coisa... E quando estava toda a família enlouquecida, ela era o bálsamo que acalmava tudo. A única pessoa, que o interventor do Rio Grande, no tempo da ditadura, deixou entrar na casa de correção, prá visitar o meu avô. Única! "

Como pude recordar ao ler a transcrição das mais de 60 páginas resultantes das Charlas, já naquela época eu comentava na roda de causos: ainda há muito o que contar da história das mulheres gaúchas. Mulheres como Francisca, Maria Helena, Aymara, que fazem história.

Ao proporcionar encontros e trocas, tanto intelectuais quanto afetivas, acredito que o Projeto Fronteiras Culturais impulsionou novas formas de pensar/sentir/contar as relações fronteiriças, “abrindo porteiras” para quem quiser se aventurar a seguir os destinos anunciados nas placas da estrada.

Brasília, 25 de outubro de 2020

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*Luciana Hartmann. Formada em Artes Cênicas(UFRGS), Mestre e Doutora em Antropologia Social(UFSC). Pesquisou por mais de década contadores de causos da fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai. Pós-doutorado na Université Paris Ouest Nanterre, compartilhando a produção de narrativas orais com crianças imigrantes. Dirigiu filmes etnográficos e experimentais, entre eles Palavras sem Fronteira, disponível no Youtube. Autora de vários livros.

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CYRO E O PENSAMENTO ILUMINADO
NO PROJETO FRONTEIRAS CULTURAIS EM QUARAÍ

 

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Nadja Boelter*

O PROJETO FRONTEIRAS CULTURAIS está fazendo 20 anos. Lembrar dessa organização, cujos propósitos resgatam a história, a geografia e a cultura dos povos e na Fronteira, é também evidenciar o trabalho engenhoso e lúcido de Maria Helena Martins junto ao CENTRO DE ESTUDOS DE LITERATURA E PSICANÁLISE CYRO MARTINS – CELPCYRO. Maria Helena tem sido o contato, a referência maior, a diretriz que encaminha esse gosto pelas histórias, modus vivendi, falares de homens e mulheres, típicos do fronteiriço do Rio Grande do Sul.

Estou a registrar essa fronteira – oeste de fato: Quaraí – Artigas; Livramento – Rivera; Jaguarão – Rio Branco.

E foi através do pensamento iluminado do escritor Cyro Martins, médico -psicanalista, pai de Maria Helena, que conseguimos “cantar a nossa aldeia”, com seus campos, ruas, becos, significantes e significados plenos de abordagens urbanas e campesinas. Ao natural, tal qual Cyro praticou a Psicanálise, na arte criativa de seus personagens literários – chegamos com a proposta do Universo ficcional que, de certa forma, também é um retrato de nós, fronteiriços.

As propostas sempre foram bem recebidas, ampliadas, reveladoras pelo bom ânimo dos diferentes públicos – alvo. Com feitio de contrabando, meio cá, mais “allá” e pelas páginas escritas de Cyro, mergulhou-se na Psicanálise, tomando a ciência como horizonte, que amplia a nossa visão interior e de mundo, ajudando-nos a enriquecer, transformar e modificar no processo e tentativa de conhecer a si mesmo.

Comecei a ler Cyro Martins em 1980.

Cyro esteve em Quaraí, em outubro de 1991, por ocasião do Seminário “Quaraí Ano 2000”. Na oportunidade, lançou seu livro Um Sorriso para o Destino. Lá estivemos e fiz-lhe uma homenagem. Ainda recordo seu sorriso meigo de guri travesso e pele rosada de satisfação. Lá estava a gente de Quaraí e a intelectualidade de Artigas. Última vinda de Cyro à sua terra natal.

A ausência física de Cyro não impediu que realizássemos inúmeras atividades literário – culturais em Quaraí, Artigas, Livramento.

Realizações seguindo os fundamentos do CELPCYRO e, mais tarde (em 2000), do PROJETO FRONTEIRAS CULTURAIS

1999 – Comemoração dos 90 ANOS de Cyro Martins – PROJETO – 1º. REENCONTRO NO TEMPO COM CYRO MARTINS: EXPOSIÇÃO DE Obras de LIANA TIMM sobre Cyro Martins / PALESTRAS / CAMPEREADA E CONCURSO DE CULINÁRIA CAMPEIRA COM PRATOS NOMEANDO OBRAS DE CYRO / Inauguração de rua / Inauguração de PRAÇA e BIBLIOTECAS que levam o nome de Cyro Martins.

 

TRABALHOS MONOGRÁFICOS (URCAMP)
QUE ORIENTEI

 

2003 – “O Gaúcho a Pé de Cyro Martins e Porteiras Fechadas ainda hoje”

2004 – “A Identidade do Gaúcho na Fronteira – Oeste do Rio Grande do Sul na obra de Cyro Martins”. Tatiana Braz

2006 – “Personagens e ambientes no romance Cavalos no Obelisco, de Cyro Martins, e Sabina, de Salvador Porta. Blau Boelter da Rosa.

Algumas considerações em texto de Blau Boelter da Rosa:

“Ao analisar vários trabalhos de Cyro, selecionei esse romance, para realizar uma leitura comparada e que serviria de pesquisa ao concluir minha graduação em Letras. Em conjunto com as professoras Marlene Feijó (orientadora monográfica) e Lilá Simon Acosta, ainda a professora Nadja Boelter, amiga, conhecedora e admiradora das obras do ilustre escritor – foi realizada uma análise de evidências entre as obras Gaúchos no Obelisco, de Cyro Martins; e Sabina, de Eliseo Salvador Porta (escritor uruguaio, artiguense, também médico). O trabalho ganhou nota máxima na avaliação dos mestres, na Faculdade de Letras da URCAMP de Alegrete, sendo indicado para publicação, destacando-se por ser um trabalho também bilíngue. Desta forma, Cyro e Porta tomaram dimensões maiores, para que eu continuasse e aprofundasse as análises literárias, realizadas no curso de Pós-graduação na UNESC – Universidade do Extremo Sul Catarinense -, na cidade de Criciúma, em Santa Catarina. Hoje, sob a orientação e coordenação do Prof. Dr. Celdon Fritzen da UNESC – doutor especialista pela Universidade de Campinas – SP – foram aprofundados os estudos dessa pesquisa. Aspectos da literariedade, análises textuais, dentre outras peculiaridades compõem o enfoque desse novo projeto, que também contribui para o reconhecimento, aqui na região sul de Santa Catarina, do grande intelectual, do médico, do homem escritor, figura importante de Quaraí. Mais que isso, assim vem o projeto Fronteiras Culturais do Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise – CELPCYRO estendendo-se por caminhos mais longínquos, como em Berlim, capital da Alemanha. Graças à dedicação e à organização de ilustre filha do escritor – Dra. Maria Helena Martins – o trabalho inteligente resgata as raízes culturais e ganha dimensão universal de propósitos contemporâneos – notabiliza Quaraí e a região fronteiriça, além Brasil. Cyro, numa mescla de arte e de magia, que a literatura imprime, soube conduzir nossas limitações e suas inquietudes sócio-políticas, instâncias de um tempo histórico, vivido com lucidez e paixão, pelo tempo na História, desde suas raízes: o Garupá.

No ir e vir como “devir da criação” expresso pelo autor, Cyro retrata – por meio da ficção – Quaraí na sua essência. Retrata, muitas vezes, na própria trajetória de vida, nossas necessidades de crescimento e de futuro. O êxodo amargo, por “dejar el rincón”, é triste. O jovem Cyro sentiu a necessidade de andar. Fez o caminho-êxodo da trilogia. Sofreu, sem perder o humor de vida. Venceu. Mas nunca deixou a alma para trás. Nesta carregou, sem valise, a bagagem da graça que o fez transformar os “recuerdos” em imagens, por palavras, no exercício disciplinado e surpreendente do texto. Cyro é ícone da nossa literatura, um quaraiense e, com certeza, sem fronteiras.”

2007 – “Aproximação e afastamento entre O crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz e Um Sorriso para o Destino, de Cyro Martins – uma literatura comparada". Juliana Pinto

2008 – “O romance histórico em Cavalos no Obelisco, de Cyro Martins e Sabina, de Eliseo Salvador Porta” – aquele pela ironia, este pelo dramático.” Blau Boelter da Rosa

 

Trabalho no Vice-Consulado da República Federativa do Brasil
em Artigas (UY)

Estudos Culturais Brasileiros com a obra de Cyro Martins

 

2011Campo Fora /Campo Afuera

2012O Príncipe da Vila e o Narrador

2016 - V Encontro Literário com Escritores na Fronteira - Artigas (UY) e Quaraí( BR) - realização do Setor Cultural do Vice-Consulado do Brasil em Artigas

 

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Quaraienses e artiguenses, alunos e público em geral, no evento

2016 –"Vida, obra e trajetória de Cyro Martins - pelos caminhos da biografia”.

 

Atividades desenvolvidas

Estudos e Debates:

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Passeio Cultural: percurso de reconhecimento do trajeto por onde passou o escritor Cyro Martins e o contato com a poetisa uruguaia e amiga Ophelia Berro Callo de Ribeiro.

 

Seminário "Nos caminhos da biografia: vida, obra e trajetória de Cyro Martins

Terceiro Ano Avançado – 15 pessoas  - Data: 29 de setembro de 2016

Local: Vice-Consulado do Brasil em Artigas (UY)

 

Programa Radiofônico

Organizamos um programa radiofônico, na rádio Quaraí, num horário de ouro: das 17h30 às 19 horas. O locutor é um poeta e trovador , Sr. Alceu Silva. O programa se chama "Roda de Chimarrão". A energia que transcende as páginas dos livros faz com que Cyro sempre viva, Viva sempre.

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Afinal, ao homenagear o FRONTEIRAS CULTURAIS, cumprimento, reconhecida, a professora Dra. Maria Helena Martins através de um pensamento que ilumina as incontáveis profundezas do ser interior e a consciência perante a conduta humana:

“Quando as pessoas passam a se conhecer, aprendem a se amar. O indivíduo que se conhece deixa de ter medo de si mesmo e não sofrerá mais de medos fantásticos, imaginários, que tanto atrapalham a vida do homem e impedem de ser feliz” – Cyro Martins.

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* Nadja Boelter. Professora de Língua Portuguesa ,Literatura Portuguesa e Brasileira nos cursos de Letras, Pedagogia e Direito.(2000-2008), na Universidade da Região da Campanha (URCAMP-RS), Professora de Língua Portuguesa. e Estudos Culturais Brasileiros; Coordenação Pedagógica do Setor Cultura, no Vice-Consulado da República Federativa do Brasil em Artigas(UY).Autora do livro de poemas A Hora do Anjo. Porto Alegre, Alcance, 2000.

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O QUE O FRONTEIRAS CULTURAIS REPRESENTOU PARA MIM

 

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Olinda Allessandrini *

Fui convidada pela amiga Aymara Célia e por Maria Helena Martins a participar do projeto Fronteiras Culturais, pesquisando músicas do Pampa. No decorrer do trabalho, recebi o convite para participar do Seminário Internacional CULTURA FRONTEIRIÇA BRASIL, URUGUAY E ARGENTINA**, em Berlim (01 a 14 de Julho de 2002). Fiquei muito feliz, logo coloquei a possibilidade de apresentar um recital em que a temática fosse a música regional dos pampas, mas com vestimenta de música de concerto. Ou seja, como intérprete que sou, pesquisava obras para piano escritas por compositores eruditos.

(Ouça "Páginas do Sul", composição de Natho Henn, com Olinda Allessandrini ao piano).

Eu tinha na minha memória lembranças de danças gauchescas, com ritmos e harmonias muito claros, e com isto eu iria traçando paralelos com as composições que deveria encontrar. Sim, busquei estes elementos nas vivências infantis e de juventude, que depois ampliei assistindo a alguns vídeos por Internet. Isto porque naquela época não consegui encontrar textos nesta linha de trabalho.

Rapidamente fiz alguns contatos com amigos músicos uruguaios, fui a Bibliotecas aqui em Porto Alegre, e consegui algumas obras de compositores gaúchos, com “jeito de pampa”. Falei pessoalmente com compositores jovens, que me presentearam com duas lindas obras escritas especialmente para este Seminário. Faltava, no entanto, a Argentina. O pouco que encontrei não combinava com o meu baú de memórias. De repente, surgiu do nada um músico argentino pesquisando algumas obras de música brasileira na Internet. Trocamos figurinhas, e literalmente “caiu no meu colo” um enorme pacote com música argentina.

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Escolhi com muito cuidado o repertório a ser apresentado, criei uma seqüência para a apresentação, ordenando por aspectos contrastantes, intitulei “pamPiano” – escolha óbvia, mas inédita...

... e este trabalho mudou minha vida.

Posso dizer que esse convite abriu as portas para vários recitais no Brasil e exterior, realizei apresentações em eventos do CELPCYRO, foi gravado um CD que esgotou rapidamente e foi reeditado, e há pouco tempo transformou-se em um DVD dirigido pelo cineasta Caio Amon, em que a simplicidade da vida campeira contrasta com a sofisticação do piano de cauda da sala de concertos.

pamPiano representou para mim uma valorização das raízes da música dos pampas, e despertou minha curiosidade em torno das manifestações musicais das Américas como um todo.

Obrigada, Aymara Celia, Maria Helena Martins e Lígia Chiappini, pela oportunidade de desbravar novos horizontes musicais.

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* Olinda Allessandrini. As atividades da pianista Olinda Allessandrini incluem apresentações ao vivo, gravações, programas de rádio, atividades pedagógicas, colaboração em livros editados e jornais. Visite seu site: http://www.olindaallessandrini.com.br/index.php.

** Esse evento se inseriu no quadro dos projetos Fronteiras Culturais na Comarca Pampeana: Obras Exemplares, coordenado por Ligia Chiappini (Freie Universität-Berlin) e Fronteiras Culturais (Brasil – Uruguai – Argentina), coordenado por Maria Helena Martins (CELPCYRO - Porto Alegre).


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FRONTEIRAS CULTURAIS - EVENTOS REALIZADOS

Registramos, no site CELPCYRO, todos os eventos realizados pelo CELPCYRO, desde o 1o. ENCONTRO FRONTEIRAS CULTURAIS (BRASIL-URUGUAI- ARGENTINA) (12 a 14 de dezembro de 2000, Porto Alegre Casa de Cultura Mario Quintana), bem como aqueles em que o Centro participou, procurando evidenciá-los como marcos importantes do desenvolvimento do projeto. Foram muitos, por essa razão, vamos aqui apenas indicar os mais relevantes, linkando-os para seus detalhes no site.

Vai faltar o planejado para comemorar os 20 anos do FRONTEIRAS CULTURAIS, que o COVID 19 impediu de acontecer ...

 

REVELAÇÕES CULTURAIS DA FRONTEIRA -

Livramento - 3a. FEISUL - Feira de Indústria, Comércio e Serviços de Livramento e Metade Sul - CELPCYRO- Prefeitura de Livramento

Apresentação de trabalhos realizados por participantes do Projeto Fronteiras Culturais- desde crianças da Escola Maternal à senhoras intelectuais do Club de Lectoras, 8 a 11 de novembro de 2001

 

CULTURA FRONTEIRIÇA BRASIL, URUGUAY E ARGENTINA

Seminário Internacional

Berlim - Universidade Livre de Berlim - Instituto Iberoamericano de Berlim

Lançamento do livro Fronteiras Culturais (Brasil - Uruguai- Argentina). Vários Autores. Maria Helena Martins (organizadora). São Paulo, Ateliê Editorial - CELPCYRO.
01 a 14 de Julho de 2002


ATIVIDADES EM LIVRAMENTO E RIVERA EM NOVEMBRO DE 2002

Encontro informal com pesquisadores da fronteira - Livramento

Perspectivas do Fronteiras Culturais para 2003

Apresentação de trabalhos em Escolas de Livramento

Encontro Histórico entre alunos da Escola Rural Aldrovando Santana e a Escuela 112- em Rivera e em Livramento - provavelmente os primeiros naquela fronteira. 

 

51° CONGRESSO INTERNACIONAL DE AMERICANISTAS

Santiago do Chile - 14 a 18 de julho de 2003 -

Tema: Repensando as Américas nos Umbrais do século XXI.


I FÓRUM DE PESQUISADORES SOBRE FRONTEIRAS CULTURAIS E CULTURA FRONTEIRIÇA
Porto Alegre - Instituto Goethe - 01 e agosto de 2003

 

II FÓRUM FRONTEIRAS CULTURAIS E CULTURA FRONTEIRIÇA

Porto Alegre - 07 e 08 de nov de 2003 - 49a. Feira do Livro de Porto Alegre -

 

FRONTEIRAS CULTURAIS NO CONE SUL

Simpósio Internacional

Porto Alegre - 04 e 05 de nov de 2004
  Casa de Cultura Mario Quintana

São Paulo - 11 de nov de 2004
  Instituto Goethe

 

FRONTEIRAS CULTURAIS: O ESPAÇO URBANO

Seminário Internacional

São Paulo - FFLCH/USP - 24 a 28 de outubro de 2005

Cidade Universitária

 

ENCONTRO DE PESQUISADORES DA FRONTEIRA

Promoção SMEC de Livramento (RS) e CELPCYRO - 02 e 03 de junho de 2006

Local: Salão de Eventos da ACIL - Av. Tamandaré, 2101 - Lviramento (RS) - Brasil

 

ENCONTRO PAMPIANO

Evento no âmbito do projeto Pampa na Universidade (CELPCYRO)

Porto Alegre - PUCRS - 31 de outubro de 2006

 

BRASIL E CONE SUL: APROXIMAÇÕES E 'DESPERFECTOS' -

Mesa-redonda - 52a. Feira do Livro de Porto Alegre - 1o. de nov 2006 - Lançamento de Cone Sul: Fluxos, Representações e Percepções.Vários Autores. São Paulo, HUCITEC, 2006. Ligia Chiappini e Maria Helena Martins (organizadoras)

 

TERRITORIALIDADE, CULTURA E AMBIENTE: OLHARES, SIGNIFICADOS E REPRESENTAÇÕES EM ÁREAS DE FRONTEIRA

I Seminário Regional - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

Dourados - 16 a 18 de outubro de 2007

 

SEM FRONTEIRAS: A LITERATURA DE VIAGEM E AVENTURA NOS PAMPAS

Seminário Internacional - Homenagem aos 100 anos do nascimento de Cyro Martins ( saiba sobre os Eventos em CYRO MARTINS 100 ANOS)

Rivera(UY) - Consulado do Brasil em Rivera - 24-25 e 26 de setembro de 2008.

 

AMÉRICA LATINA , INTEGRAÇÃO E INTERLOCUÇÃO- JALLA 2010

Simpósio Internacional

Niterói (RJ) - UFF - 2 a 6 agosto/2010

ENCONTROS E DESENCONTROS NA AMÉRICA LATINA DO SÉC.XX

 

BRASIL E ALEMANHA PESQUISAM MERCOSUL E CULTURA

Simpósio Internacional

Lançamento do livro bilingue Fronteiras da Integração: Dimensões Culturais do Mercosul / Fronteras de la Integración: Las Dimensiones Culturales del Mercosur

São Paulo - 08 de agosto de 2011 - Instituto Goethe

Porto Alegre - 11 de agosto de 2011 - Instituto Goethe

 

CYRO MARTINS REVISITADO

Porto Alegre - Santander Cultural - 06 de julho de 2012

Mesas-redondas e Lançamento da reedição do livro de contos de Cyro Martins A Entrevista e do curta-metragem de Guilherme Castro - Boa Ventura, inspirado no romance Porteira Fechada.

 

CYRO MARTINS - 80 Anos CAMPO FORA

Evento comemorativo e lançamento de Campo fora em ebook pelo IEL

Porto Alegre -16 de abril de 2014 - Instituto Estadual do Livro (IEL)

 

ENCONTRO BINACIONAL DE ESCRITORES NA FRONTEIRA

Vice-Consulado da Republica Federativa do Brasil em Artigas (UY)

 

ENCONTRO SOBRE FRONTEIRAS CULTURAIS - CELPCYRO 20 ANOS

Porto Alegre - 20 de outubro de 2017

FABICO-UFRGS - CELPCYRO


Na REVISTA ELETRÔNICA CELPCYRO encontram-se artigos e relevantes trabalhos sobre Fronteiras Culturais